Rodas de conversas com homens presos podem diminuir os recordes de feminicídio?
Repórter da Rádio Novelo acompanhou encontros reflexivos em presídio do Rio, em busca de respostas: é possível, com diálogo, baixar as taxas de violência contra a mulher?
Entrei pela primeira vez na Cadeia Pública Juíza Patrícia Lourival Acioli em novembro de 2025. Foram meses se preparando para a visita ao presídio em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Dos cerca de 1.800 homens presos lá, 40% respondem ou já foram condenados por crimes contra a mulher. A maior parte, 29%, por agressão física.
Essa concentração de autores de violência contra a mulher não é uma coincidência e faz parte de um projeto pioneiro no Rio. A Secretaria da Mulher do governo estadual começou, no ano passado, uma série de encontros reflexivos dentro do presídio para discutir a Lei Maria da Penha, masculinidade e paternidade com esses homens.
Os grupos reflexivos existem há décadas a partir da iniciativa de mulheres. Mas é a primeira vez que ele é feito dentro do sistema prisional do Rio. Assim como todos os que acompanham o mínimo do noticiário, as pessoas (a maioria de mulheres, é preciso dizer) que capitanearam a iniciativa perceberam que era preciso fazer algo novo para combater a violência contra a mulher. Algo que mude a rota dos últimos dados que a gente tem visto.
O Brasil bateu recorde de feminicídios em 2025 – o Ministério da Justiça e Segurança Pública contabilizou 1.470 mortes no país.
Especialistas que ajudaram na formulação desse projeto também notaram que, com frequência, nos casos de homens que voltam para o cárcere pela Lei Maria da Penha, a violência aumenta. Ou seja, se, na primeira vez, ele foi preso por violência psicológica, retorna por agressão física.
Esse cenário desolador nos levou –eu e o Vitor Hugo Brandalise, também repórter da Rádio Novelo– ao presídio. Para ver se esses autores violência podem mudar com a roda de conversa, se saem diferente dessa experiência. A gente queria chegar o mais perto de uma resposta para a pergunta que estava na nossa cabeça ao acompanhar o noticiário: o que a gente faz para diminuir os índices de violência? Como se interrompe esse ciclo? Esse foi o nosso norte na reportagem “Na Roda”, publicada no podcast Rádio Novelo Apresenta.
O programa do governo do estado é voluntário, e nos impressionamos ao saber que até homens que não estavam presos por violência contra a mulher se inscreviam para participar dos encontros, que acontecem três vezes por semana, por 50 minutos. Já no nosso primeiro dia, um participante decidiu desabafar sobre o que o tinha levado à prisão. Admitiu que os socos que deu na sua agora ex-mulher foram um erro, uma violência. Que tinha transformado “um erro dela” (uma traição) em “um erro dele” (a agressão física), e que queria corrigir isso criando melhor o seu filho mais novo.
Descobrimos, no entanto, que nossa empatia e esperança oscilariam acompanhando as rodas – e que os encontros se tornariam um mosaico das concepções que homens têm sobre as mulheres e sobre si mesmos.
Uma parte do grupo dizia que as mulheres andavam encostadas, que resolviam ter filhos para ganhar verba do governo. Para eles, elas também já ocupavam altos postos de trabalho e deixaram os homens sem lugar na sociedade – uma percepção falsa que logo foi rebatida com um dado real trazido pelo mediador da roda: as mulheres não são nem a maioria no trabalho formal no Brasil.
Outros tentavam se contrapor ao dizer que nunca haviam visto suas mães sem trabalhar, e que foram bem-criados a duras penas. Mobilizar a figura materna era revelador de uma realidade comum ali dentro: boa parte daqueles homens não contou com pais presentes. As visões que eles tinham de paternidade, com frequência, giravam em torno da figura de um provedor, de quem bota a comida na mesa. Não era tão atrelada ao cuidado, como viam entre as mulheres.
Na oscilação de sentimentos que vivemos ali, a desconexão com a realidade era a ponta solta com a qual eu mais tinha dificuldade de lidar. Enquanto fazíamos as visitas, casos brutais de violência contra a mulher aconteceram em um intervalo de poucos dias. Um homem matou duas mulheres dentro do Cefet [Centros Federais de Educação Tecnológica], no Rio de Janeiro. Em São Paulo, um homem atropelou sua ex-namorada e a arrastou com o carro até a marginal Tietê, em São Paulo. No momento em que publicamos a reportagem, meses depois, o caso que tomou a imprensa é de estupro coletivo cometido por quatro homens no Rio.
Por isso parecia tão urgente responder de maneira certeira e definitiva à pergunta do que a gente faz para interromper essas violências. A psicóloga e professora Cecília Teixeira Soares fez esse mesmo questionamento anos atrás e chegou a uma resposta sobre se as rodas de conversa funcionam ou não. Se parar de agredir é considerado funcionar, a resposta é sim, funcionam. A letalidade dos crimes caíram no cenário que ela e sua equipe de pesquisadores observaram. Mas ainda há um caminho longo para que isso mude de maneira profunda o que esses homens pensam sobre as mulheres. “Geralmente, as mulheres fazem um trabalho muito mais profundo, de muito mais reflexão”, nos disse Soares. “Os homens não vão tão a fundo.”
O cenário que a gente vê agora só pode começar a mudar se a socialização das próximas gerações for diferente. Não à toa, Soares comanda programas de conversas sobre masculinidade com crianças e com adolescentes, antecipando essa ressocialização para um momento em que a violência ainda não aconteceu.
As pessoas que estão olhando para esse quadro desesperador estão tentando interromper situações que são absolutamente urgentes: o feminicídio, as agressões físicas, a violência psicológica.
Em casos como o do estupro coletivo cometido por quatro homens, beira o impossível não pensar –ao sentir tamanho medo– que o melhor caminho é endurecer ainda mais as penas. Mas já se sabe que esse não é um caminho que vai mudar o que a gente está vivendo.
Ao visitar essas rodas de conversa e, sobretudo, ouvir pessoas como Lincoln Frutuoso, mediador das rodas no Patrícia Acioli, e a antropóloga Isabela Venturoza, que estão na linha de frente desse contato com homens autores de violência, fiquei tomada pela visão deles de que é preciso se fiar em um desejo radical de mudança. Só as penas definidas pela lei e o encarceramento não resolveram o problema de violência contra a mulher, ainda não está resolvendo.
Nos encontros que acompanhamos, escutamos Lincoln falar mais de uma vez sobre o compromisso político que um homem assume ao confrontar seus pares. É um chamado à responsabilidade que os autores de violência precisam responder para interromper esse ciclo. Lincoln encerrou o último encontro que acompanhamos perguntando aos participantes: “Sobre o que a gente tem controle aqui?”. Ao que eles responderam: “Nós mesmos. Nós mesmos”.
*Carolina Moraes é repórter da Rádio Novelo e coautora de “Coreografia da Escolha”, livro sobre a história do aborto no Brasil que será publicado pela editora Fósforo no fim do primeiro semestre









