15 anos do massacre de Realengo: ‘Parece que esse dia não acaba nunca’
Mãe e irmã de vítimas falam sobre a importância da memória e das mudanças nas escolas brasileiras
No dia 7 de abril de 2011, a escola municipal Tasso da Silveira, situada em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, comemorava seus 40 anos. Para o evento, recebia ex-alunos para dar palestras, contando aos estudantes sobre suas vidas fora do ambiente escolar. Era uma quinta feira. Na aula da professora Leila D'Angelo, que acontecia no primeiro andar, cerca de 40 alunos estudavam português.
Samira Pires tinha 13 anos, era divertida, menina alegre, queria ser médica da Marinha. Assim como muitas das crianças presentes, amava estudar. “Minha mãe até chegou a perguntar se ela queria faltar à aula naquela manhã, mas ela disse não, porque tinha uma aula de que gostava muito. Acabou indo para a escola", diz Valéria Pires, sua irmã mais velha.
Por volta das 8h30 da manhã, com o argumento de que participaria do evento, Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, ex-aluno, passou pelos portões. Nas mãos, carregava uma sacola. Dentro dela, dois revólveres. Entrou, conversou com uma antiga professora e vagou pelos corredores por um breve momento.
Foi então para a sala da professora Leila, onde estava Samira. “Ela morreu com um tiro na testa. Foi a primeira aluna atingida, na primeira sala em que ele entrou. Depois, houve uma sequência de meninas”, conta Pires. Em aproximadamente 15 minutos, Oliveira fez 12 vítimas fatais e feriu 13 estudantes. Enquanto policiais tentavam conter o atirador, ele foi atingido na barriga e, logo em seguida, cometeu suicídio.
Das crianças mortas, algumas características em comum: todas tinham entre 12 e 15 anos, 10 delas eram meninas. Ana Carolina, 12 anos; Bianca Rocha, 13; Géssica Guedes, 15; Karina Chagas, 14; Larissa dos Santos, 13; Laryssa Silva, 13; Luiza Paula, 14; Marina Rocha, 12; Milena dos Santos, 14 e Samira Pires, 13. Além delas, Rafael Pereira, 14, e Igor Moraes, de 13 anos.
Um crime de gênero
“Eu pensei que estava deixando minha filha num ambiente seguro. Não imaginava que em algumas horas voltaria, não para buscá-la, mas para buscar seu corpo.” É o que diz Adriana Silveira, mãe da aluna Luiza Paula. Depois do atentado, ela fundou a Associação Anjos de Realengo, ONG formada por famílias e amigos das vítimas, que promove o diálogo e combate ao bullying nas escolas.
Por mais que o crime de feminicídio tenha sido tipificado apenas quatro anos depois, a pesquisa Mortes em massa e feminicídio: um estudo do crime de Realengo na perspectiva da criminologia com perspectiva de gênero (2020), da advogada Isabela Barbosa, identifica que muitas das motivações para mortes em massa podem estar diretamente relacionadas à questões de gênero, inclusive o que aconteceu em Realengo.
O atirador deixou duas cartas. Por mais que tenha declarado o bullying sofrido em seus tempos de escola como principal motivador para o crime, à época, sobreviventes relataram que seu foco era matar meninas. Elas foram escolhidas e atingidas na cabeça, enquanto os meninos tiveram braços e pernas mirados.
Sim, é necessário considerar muitas dimensões para compreender o que realmente aconteceu ali. “Até hoje a gente procura uma resposta, mas eu consigo entender que foi um crime contra as mulheres. Isso ficou bem claro", define Silveira.
Em memória dos estudantes que perderam a vida, o dia 7 de abril foi instituído pela Lei nº 13.277/2016 como Dia Nacional de Combate ao Bullying e à Violência na Escola. Junto às autoridades competentes, foi uma conquista da Anjos de Realengo. “Parece que esse dia não acaba nunca. Eu escuto muito que a gente não deixa a memória das crianças em paz, mas esquecer é permitir que isso se repita", comenta Pires.
Misoginia nas escolas
A pesquisa Ataques em Escolas e o Discurso de Ódio Entre Jovens: impactos e reflexões (2025) registrou 49 ataques em instituições de ensino brasileiras desde 2017. Em consonância, o trabalho identifica uma combinação de discursos de ódio, muitos deles com teor misógino, e reconhece a influência de grupos antidemocráticos na formação de opinião desses jovens em ambientes online.
Em março último, mês da mulher, foi assinada a portaria de regulamentação da Lei nº 14.164/2021, apelidada de Maria da Penha Vai à Escola, que inclui conteúdo sobre a prevenção da violência contra a mulher nos currículos da educação básica, além de criar a Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher. “Não se pode cobrar somente da instituição, mas também exigir que as famílias e autoridades trabalhem juntas para solucionar esse problema", relata Silveira.
“Recentemente fui dar palestra em uma escola e conheci uma criança que estava sofrendo bullying. Depois de um mês, eu soube que ela tirou a própria vida. Quando a gente recebe uma notícia dessas, se sente impotente. Mas eu continuo lutando, nem que eu tenha que repetir o que é a minha dor 24 horas por dia. Porque se eu conseguir mudar uma vida sequer, meu papel na terra já vai ter sido cumprido”, complementa a mãe.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) mais recente, divulgada em março último, indicam que o problema ainda está longe de ser solucionado. Quase quatro em cada dez estudantes brasileiros de 13 a 17 anos (39,1%) afirmaram ter se sentido humilhados por provocações de colegas ao menos uma vez nos 30 dias anteriores à pesquisa.
Quando é feito o recorte de gênero, 43,7% das meninas relataram episódios de provocação, percentual superior ao registrado entre os meninos, que foi de 34,4%. A diferença se acentua nos casos recorrentes, já que 26,5% das alunas afirmaram ter sido alvo de provocações duas ou mais vezes, frente a 19,5% dos estudantes.
Quinze anos depois, o debate segue relevante. O que aconteceu em Realengo é, sobretudo, fruto dessa violência que permeia as escolas brasileiras até os dias de hoje. “O que fica na lembrança do dia é um silêncio, um espaço vazio e que você não consegue preencher com nada. A verdade é essa”, finaliza Pires.









