Violência de Gênero
Por
Bruna Liu
, redação Marie Claire — de São Paulo (SP)

A ligação chegou como qualquer outra. Caroline Januário, psicóloga e sexóloga com quatro anos de atuação clínica, atendeu achando que era um conhecido. Em poucos minutos, ficou claro que não era. Do outro lado da linha, um homem seguia um roteiro que ela já havia aprendido a reconhecer: ele relatava um sofrimento intenso e, na sequência, detalhes sexuais explícitos que não têm lugar numa primeira abordagem clínica.

O homem falava sobre os seus “problemas sexuais” com a voz ofegante, enquanto claramente se masturbava durante a chamada. “Esses caras ligam com um padrão muito específico. Falam que estão passando por uma situação difícil, que precisam muito de ajuda. Tentam criar esse território de empatia para que a gente se sinta na obrigação e no dever de atendê-los”, revela Januário, em entrevista a Marie Claire.

Essa não foi a primeira vez que ela enfrentou algo do tipo. Quando recém-formada, em 2022, Caroline passou por outra situação parecida, mas, na época, não leu o episódio como assédio. “Só depois, com a ajuda da minha supervisora, fui entendendo o que significava”, conta.

A terapeuta descreve um padrão de comportamento também reconhecido por outras psicólogas. O contato do abusador começa, na maioria das vezes, por telefone, com insistência numa chamada de vídeo. O tom é de sofrimento e urgência. Conforme a conversa avança, surgem os detalhes sexuais. “Normalmente, os pacientes com queixas sexuais reais têm dificuldade para falar sobre o assunto. Quando é um quadro de assédio, eles não têm essa inibição.”

No caso da psicanalista Andrea Calheiro, o primeiro contato chegou por meio de seu consultório, sem passar pela profissional primeiro. Já achando estranho, ela conta que enviou o formulário de anamnese para o suposto paciente. “Ali ficou claro: conteúdo totalmente explícito, descrição de ato sexual, do próprio corpo, do órgão genital… Não era um pedido de ajuda, era outra coisa. É assustador o nível de ousadia. Bloqueei na hora.”

Mas o problema não fica restrito ao atendimento clínico. Andrea, que é brasileira, dirige um instituto de formação em psicanálise nos Estados Unidos e teve aulas invadidas duas vezes por homens que entraram para exibir pornografia e mencionar abuso de crianças. “Tive que mudar toda a estrutura das aulas por causa disso. Nem sempre quem procura atendimento quer ajuda. Às vezes é alguém testando limites, invadindo, tentando repetir violência de outra forma”, lamenta.

Caroline Januário é psicóloga e sexóloga — Foto: Reprodução/ Instagram
Caroline Januário é psicóloga e sexóloga — Foto: Reprodução/ Instagram

A psicóloga Carolina Botelho também enfrentou um episódio de assédio –logo no início da sua prática clínica. Um homem pediu uma sessão de emergência online e, durante o atendimento, ela percebeu que o rapaz estava se masturbando diante da câmera. Ele justificou dizendo que não conseguia se controlar em locais públicos e que isso trazia problemas para sua vida.

Carolina conta que encerrou a sessão de imediato. “Fui direta e disse que não haveria possibilidade de fazer nenhum tipo de psicoterapia diante daquela situação.” O que ficou, no entanto, foi uma sensação de impotência. “É horrível. A gente pensa: ‘O que eu fiz para merecer isso?’.”

A violência também se manifesta fora das sessões. A psicanalista Silvana* relata que, ao impulsionar um conteúdo nas redes sociais de seu perfil profissional, passou a receber ligações de vídeo na madrugada de homens, além de fotos de genitálias. “Aprendi agora a direcionar a publicação, mas não é possível ignorar esse comportamento masculino em massa”, observa.

‘Percebi que é muito mais amplo’

A migração do atendimento psicológico para o formato online, normalizada durante a pandemia, criou condições mais “favoráveis” para esse tipo de abordagem, argumentam as profissionais. “Esses homens acabam entrando em grupos que compartilham contatos de psicólogas. Eles têm acesso mais fácil às profissionais que atendem online”, diz Caroline.

Após publicar seu relato no Instagram, ela conta que foi surpreendida pelo volume de comentários de psicólogas de diferentes especialidades, além de professoras, esteticistas e profissionais de outras áreas, que passaram por situações semelhantes. “Eu achava que o assédio acontecia muito pelo nicho em que trabalho. Depois do post, percebi que é muito mais amplo do que isso.”

Para Caroline, o problema está em uma estrutura mais profunda do que o comportamento individual de cada assediador. “É estrutural. Existe uma dinâmica de dominação. E os homens se sentem à vontade para interferir no espaço das mulheres.”

Ela afirma que a psicologia, como profissão predominantemente feminina e voltada ao cuidado, oferece uma abertura que pode ser explorada de maneira predatória. “Estamos abertas ao acolhimento, o que pode transmitir a impressão equivocada de disponibilidade constante para escutar qualquer demanda, a qualquer momento. Essa percepção também pode gerar a falsa sensação de que seremos vítimas fáceis,”, declara.

No caso das sexólogas, há ainda a sexualização da própria função. “Não tem a ver com a roupa que a profissional usa num vídeo nem com a postura nas redes sociais. Tem a ver com não ser naturalizado uma mulher falar sobre sexo."

Respostas práticas e coletivas

Depois dos episódios, Caroline mudou a forma de conduzir seu trabalho. Não atende ligações de números desconhecidos e solicita identificação antes de agendar sessões. Quando percebe um padrão suspeito, encaminha para colegas homens.

No campo legal, a Delegacia da Mulher é apontada como o caminho mais apropriado para denúncias. Ela também defende que o CRP (Conselho Federal de Psicologia) crie mecanismos de proteção específicos para profissionais.

“A gente pensa muito na proteção dos pacientes. Mas, quando esse espaço é invadido, a gente precisa de limites e de órgãos que nos protejam também. A terapia precisa ser um espaço seguro para todos os envolvidos, não só para os pacientes.”

O que diz o Conselho Regional de Psicologia

O Conselho Regional de Psicologia do Paraná (estado onde Caroline atua), reconhece que situações de violência e assédio contra psicólogas no exercício da profissão "vêm se tornando um desafio na atuação da categoria" e orienta que essas condutas não sejam naturalizadas.

Segundo o CRP-PR, ofensas, agressões verbais, exposição do corpo e invasão de privacidade praticadas por pessoas atendidas ou terceiros são passíveis de boletim de ocorrência, que pode ser registrado pela internet, em delegacia da mulher ou na Polícia Civil mais próxima.

O próprio Código de Ética da profissão ampara a quebra de sigilo nesses casos, desde que "restrita às informações estritamente necessárias e orientada pela busca do menor prejuízo". O conselho recomenda ainda documentar detalhadamente cada episódio, como datas, horários, descrição das pessoas envolvidas, e avaliar a necessidade de recorrer aos dispositivos jurídicos.

A comunicação ao CRP-PR não é obrigatória, mas é possível. O órgão, no entanto, se restringe à fiscalização do exercício profissional e não alcança medidas diretas contra os assediadores.

*O sobrenome da fonte foi ocultado

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