O que a magreza extrema tem a ver com a alta de violência contra a mulher?
Especialistas ouvidas por Marie Claire analisam o retorno da tendência de corpos esquálidos e como isso leva à vulnerabilidade, favorecendo o controle social, a perda de direitos e até as agressões
Estamos definitivamente de volta à era das “magras, magras, magras”. Trends exaltam o emagrecimento a qualquer custo, associado ao uso de Mounjaro e similares. Celebridades desfilam esquálidas e orgulhosas em eventos e tapetes vermelhos. O movimento body positive (corpo positivo) anda cada vez mais escanteado. E as mulheres têm um novo padrão de beleza inatingível para assombrá-las.
Preocupante? Pois piora. Já pensou que a cobrança por essa magreza extrema pode ser utilizada como ferramenta de controle social?
A comunicadora Vanessa Rozan, doutoranda em Psicologia Social na PUC-SP, pesquisa os impactos da inteligência artificial no consumo de beleza e afirma: quando o corpo volta a se tornar uma obsessão, torna-se mais fácil desviar a atenção de pautas relacionadas aos direitos sociopolíticos.
“Você deixa de se preocupar com a sua posição no mundo como sujeito. Quanto mais estamos obcecadas com detalhes mínimos do corpo, em vez de pensar que esse corpo é o que possibilita viver e experimentar a vida, mais tentamos retalhá-lo e consertá-lo sob a ótica de um padrão específico. E, quanto menos nos preocupamos com nossa posição como sujeitos na sociedade, mais nossos direitos vão sendo testados e reduzidos”, afirma.
Se você cresceu entre a década de 1990 e os anos 2000 -- períodos em que a magreza era vista como o ápice do sucesso feminino --, talvez se pergunte o que aconteceu com os avanços trazidos pelas discussões sobre diversidade corporal que marcaram os anos 2010.
Mas talvez o problema tenha sido esse mesmo: avançar. A psicóloga Joana Novaes, coordenadora do núcleo de Doença e Beleza da PUC-Rio, explica que esse ideal de beleza, baseado na magreza e na juventude, funciona como um projeto político de controle e vigilância dos corpos, dentro do que se entende como dominação simbólica.
“Curiosamente, também há uma tendência à infantilização desses corpos, e um corpo extremamente magro é o que mais se aproxima dessa ideia. Então, o corpo feminino é reduzido a duas coisas: sua capacidade reprodutiva, o que é contraditório, já que a magreza extrema afeta a fertilidade, e a um estado de maior controle, pois um corpo infantil é mais facilmente dominado”, destaca.
Magra e fraca
Depois que conteúdos sobre valorização da magreza voltaram a circular pela internet, muitas mulheres reagiram.
Em um post no TikTok, por exemplo, uma escreveu: "Mulheres extremamente magras são fracas, e os homens romantizam essa magreza para matá-las com mais facilidade". Já outra defendeu: "Treine para ser forte, aguentar correr e se virar. Não adianta ser magra e fraca".
As reações não são exageradas, tendo em vista o recorde histórico de feminicídio registrado no Brasil em 2025. Segundo Novaes, nesse cenário a violência física vai além da agressão quando a saúde das mulheres também é prejudicada e enfraquecida.
“A violência física é mais palpável no sentido de que você vê as mulheres adoecendo. Eu estudo essa temática há 30 anos e posso dizer com segurança que só piora. Cada livro ou coletânea que lanço é sempre em homenagem ou em memória a alguém, porque as mulheres continuam a morrer”, pontua.
Para sempre insatisfeita
Antes, o padrão de beleza era reforçado diariamente para as mulheres, mas em doses espaçadas: a revista que ia para as bancas mensalmente, o filme que chegava ao cinema, o programa de TV dominical. Hoje, basta ter um celular com internet para ser exposta de maneira ininterrupta a esse padrão de beleza.
“Por causa desses inúmeros recortes, a gente tem programado nos nossos cérebros um jeito de ver o nosso corpo que é segmentado. Então, vai olhando o detalhe do detalhe, e aquilo vai ficando enorme. Com as redes sociais, isso é elevado à potência máxima, porque tem conteúdo 24 horas”, ressalta Rozan.
Mesmo com o avanço das discussões sobre corpo real e autoaceitação, as mulheres ainda carregam, quase que de forma intrínseca, um sentimento constante de insatisfação alimentado por décadas de publicidade e por normas sociais que definem o que seria o corpo ideal.
Para Rozan, com os algoritmos e a inteligência artificial em alta, problemas continuam sendo criados ou ampliados de forma mais intensa: textura de pele, formato do rosto, proporções do corpo, sinais mínimos que passam a ser vistos como falhas.
“Ou seja, primeiro se constrói a insatisfação, depois se vende a solução. E isso é altamente instrumentalizado porque movimenta consumo, mantém a atenção das pessoas e ocupa tempo e energia que poderiam estar direcionados para outras questões, inclusive sociais e políticas”, esclarece.
Ao mesmo tempo, surgem soluções imediatas, com produtos, procedimentos e rotinas que prometem corrigir essas imperfeições. Desta forma, a insatisfação corporal é produzida junto com a promessa de que se você ainda não chegou lá, é porque ainda não fez tudo o que deveria.
Nesse sentido, a psicóloga Joana Novaes chama a atenção para o fato de que o corpo exaltado tem cor e classe social. Há privilégios que garantem que essas práticas e intervenções estéticas sejam realizadas com segurança, assim como o acesso a uma alimentação que possibilita a manutenção desse padrão de magreza.
“A responsabilidade vira uma questão meramente de caráter. Se você não está em conformidade, é visto como alguém preguiçoso, desleixado. Isso também produz adoecimento psíquico, porque a pessoa passa a pensar que há algo de errado consigo. Tudo aquilo que envolve organização financeira, genética e realidade socioeconômica é deixado de lado”, afirma.









