Biógrafa de Dercy Gonçalves: ‘Reduzi-la à figura da velhinha desbocada é um equívoco'
A jornalista Adriana Negreiros é autora de “Dercy: A diva debochada”, livro no qual narra a vida centenária da que foi considerada a grande dama do teatro brasileiro. Em entrevista a Marie Claire, ela conta os episódios de violência que marcaram a vida da artista
Dercy Gonçalves viveu 101 anos, viu 32 presidentes da República, vivenciou duas ditaduras e ergueu uma carreira baseada na irreverência em meio a um cenário conservador, onde qualquer mulher que ousasse se tornar artista era instantâneamente tachada de puta. “Cada mulher manda na sua xereca” – era a frase que usava para justificar o fato de não querer ser mãe, porque o que queria mesmo era estar no palco.
Apesar da coragem, da ousadia e do dedo sempre em riste, sua vida foi marcada por uma série de violências, incluindo um estupro aos 73 anos. Na biografia intitulada "Dercy: A diva debochada", a jornalista e escritora Adriana Negreiros propõe um olhar para além da figura muitas vezes lembrada apenas por seu repertório de palavrões.
Dolores Gonçalves Costa, nome de batismo da artista nascida em Santa Maria Madalena (RJ), foi atriz, humorista e cantora. Despediu-se da vida em 2008, não sem antes ter sido reconhecida pelos grandes críticos como uma figura essencial para a cultura brasileira.
"É uma mulher que foi testemunha de toda uma indústria do entretenimento e foi, acima de tudo, uma grande dama do teatro brasileiro”, diz Negreiros, em entrevista exclusiva a Marie Claire. Ela também é autora de “Maria Bonita: Sexo, violência e mulheres no cangaço” e “A vida nunca mais será a mesma: Cultura da violência e estupro no Brasil”.
Leia trechos da entrevista.
MARIE CLAIRE Ao longo da pesquisa para a biografia de Dercy Gonçalves, o que mais te surpreendeu na trajetória dela?
ADRIANA NEGREIROS Quando resolvi escrever sobre Dercy, eu tinha em mente contar histórias de uma mulher que também nos levasse a compreender como vivia a mulher no século passado no Brasil. E a Dercy é uma personagem muito interessante nesse aspecto, não apenas pelo fato de ela ter vivido o século praticamente inteiro, mas porque foi uma figura que contrariou todas as expectativas de gênero depositadas sobre ela.
Mas o que eu não sabia ao começar o trabalho de investigação é que a vida da Dercy também havia tido uma série de dificuldades. Ela sofreu inúmeras violências: patrimonial, psicológica, sexual. O fato é que ela nunca escondeu essas violências, mas nunca as transformou em uma espécie de bandeira, algo que pudesse conferir a ela um estatuto moral superior por ter sido vítima de tanto sofrimento.
MC Qual é o equívoco mais comum que as pessoas ainda cometem sobre ela?
AN Reduzi-la à figura da velhinha desbocada que falava palavrões é um equívoco imenso, que não faz jus à trajetória da Dercy Gonçalves. Ela foi reconhecida pelos grandes críticos de sua época como uma figura absolutamente essencial para a cultura brasileira. Começou a sua trajetória ainda como uma artista de circo mambembe. Foi estrela do teatro de revista, da era do rádio, acompanhou o cinema nos seus primórdios. Na televisão, começou a trabalhar pouco depois que a TV passou a funcionar no Brasil. É uma mulher que foi testemunha de toda a indústria do entretenimento e foi, acima de tudo, uma grande dama do teatro brasileiro.
MC Desde que decidiu se tornar artista, Dercy foi chamada de “puta”. Como esse ambiente machista moldou a forma como ela era retratada pela imprensa?
AN Era isso o que se pensava sobre mulheres que queriam atuar na indústria do espetáculo. E ela dizia: “Ah, já que isso significa ser puta, então eu vou ser a maior puta do mundo”. Ela teve que enfrentar comentários de todo tipo na imprensa. Dizia-se, por exemplo, na época do teatro de revista, que ela era feia, porque não correspondia ao padrão de beleza das vedetes. Ela lidou com esse tipo de acusação por toda a vida, e isso a afetava muito. Desde os 30 anos era acusada de ser velha, especialmente por se relacionar com homens mais novos. Isso sempre foi uma questão para ela. Curiosamente, nunca escondeu a idade. Sempre assumiu, mas fazia o que estava ao alcance para parecer mais jovem.
MC Dercy foi uma figura contraditória e, hoje, a contradição não é bem vista. Como você imagina que será a recepção do público ao livro?
AN Ela não pode ser lida de forma simples. Fazia críticas às feministas e também defendia um comportamento mais pudico. Dizia: “Na cama, seja uma dama”. Era um discurso conservador, embora a prática fosse muito diferente. Talvez a gente viva num momento em que há um excesso de “campeões de virtudes”, e a Dercy era o oposto disso exatamente por ter sido um ser humano – um ser humano fantástico. O mais interessante é que ela não reivindicava para si esse posto de mulher perfeita, que não cometia erros. De forma alguma. Ela assumia publicamente suas vulnerabilidades, suas fraquezas e suas contradições. Que possamos compreender que ter contradições é próprio da condição humana.
MC A vida de Dercy foi marcada por violências sexuais. Em um dos capítulos, você conta do estupro que ela sofreu aos 73 anos. Como decidiu abordar esse tema?
AN Foi uma violência que comprometeu muito o corpo dela. Ela ficou ensanguentada e disse que terminou ali “em pedaços de miséria”. Foi uma violência brutal. E a Dercy nunca escondeu isso. O trágico é que, quando falava sobre isso, muitas vezes era motivo de chacota. Há um episódio muito significativo: uma entrevista que ela deu ao Roda Viva, em 1987, em que contou sobre o estupro, e a reação de parte da bancada foi rir. Claro que é preciso considerar o contexto da época, não havia o debate que temos hoje sobre violência. Mas era assim que se tratava. E essa é uma das razões pelas quais ela odiava ser chamada de “irreverente”: dizia que isso fazia com que tudo o que ela contasse parecesse uma piada, inclusive quando falava de violência sexual. A primeira experiência sexual dela também foi um estupro. Era impossível não mencionar esse episódio numa biografia, porque faz parte da trajetória dela. E também porque, infelizmente, fecha um ciclo de violência.
MC Uma das escolhas da biografia foi usar frases da própria Dercy, com palavrões, como títulos dos capítulos. O que essa decisão revela sobre a forma como você quis contar a história?
AN Essa escolha foi uma forma de fazer justiça à própria Dercy, que era uma mulher muito engraçada. Os títulos têm essa graça. A ideia era fazer com que o espírito dela estivesse muito presente no livro. Foi também uma maneira de criar um contraponto entre a dureza de muitos momentos da vida dela e essa capacidade que ela tinha de ver a vida com leveza, com humor. Era uma mulher muito bem-humorada, espirituosa, rápida.
MC E quem era a Dercy longe dos palcos e das manchetes?
AN Na vida privada, era uma mulher muito conservadora, bem diferente da figura escrachada do palco. Não permitia palavrões em casa. Era uma mulher de comportamento íntimo quase moralista, o que muitas vezes gerava constrangimento quando tentavam tratá-la como a personagem pública. Tinha hábitos simples: gostava de comer em casa, comidas como feijoada, rabada. Não costumava ler, por conta da pouca escolaridade. Apreciava a vida doméstica e tinha uma birra tremenda de quem tentasse demonstrar erudição. Era também uma mulher, em certa medida, muito solitária, porque teve amores muito frustrados ao longo da vida. Tanto que dizia: “Só o público soube me amar. Os homens, não”.
MC O que você acha que o Brasil de hoje ainda pode aprender com a trajetória de Dercy Gonçalves?
AN Embora ela fosse essa mulher que disse que, na cama, as mulheres deveriam ser recatadas, ao mesmo tempo dizia algo que ia na direção oposta: “Cada mulher manda na sua xereca”. Ela usava essa frase inclusive para justificar o fato de ter feito oito abortos, de não querer ser mãe, de desacralizar completamente a maternidade, porque o que queria mesmo era ser artista. Então, acho que Dercy Gonçalves tem muito a nos ensinar nesse sentido: às vezes é preciso ter coragem para contrariar o espírito do tempo. Acho essa uma lição importante. E a Dercy foi uma mulher que enfrentou isso. Para contrariar o seu tempo, é preciso coragem e aguentar muita pressão. Ela aguentou e seguiu em frente.
"Dercy: A diva debochada"
Adriana Negreiros
Editora Objetiva // 304 pp • R$ 79,90
Lançamento em maio de 2026









