‘Cê não quer, as puta quer': no Top 10 do Spotify, mais da metade das músicas objetifica mulheres
Especialistas ouvidas por Marie Claire explicam como as músicas influenciam a construção da personalidade de meninos e meninas; “Letras misóginas podem fortalecer esquemas cognitivos disfuncionais”, diz psicóloga
“Na boca das puta eu sou o assunto.” Esse é um dos versos do funk “Carnívoro”, de MC Lele JP, Mc Negão Original e DJ Japa NK, faixa que figura há meses no Top 10 do Spotify Brasil. É possível encontrar a mesma forma pejorativa de se referir às mulheres em pelo menos outras quatro composições do ranking, reforçando a objetificação feminina em músicas que alcançam milhões de reproduções diariamente.
Embora, neste caso, o funk seja o gênero predominante, é importante ressaltar que o problema não é exclusivo desse ritmo. O sertanejo, que também costuma ocupar lugar cativo entre as músicas mais ouvidas pelos brasileiros, é frequentemente associado a letras que reforçam estereótipos de gênero e naturalizam relações de posse entre homens e mulheres.
A questão, especialmente quando as faixas se popularizam entre os jovens, é quando a exposição a letras misóginas não fica só no entretenimento e passa a operar no inconsciente, naturalizando comportamentos que perpetuam a violência contra a mulher. É o que afirma Adriana Ribeiro, terapeuta sistêmica especialista em desenvolvimento humano.
Em outro trecho de “Carnívoro”, a mensagem associa mulheres a uma noção descartável dentro das relações afetivas. “Cê não quer, as putas quer, eu já tô metendo o pé/ Se ela larga, outras quer, o que não falta é mulher”, continua a letra.
Neste sentido, outro risco apontado pela psicóloga Cláudia Melo é de que a repetição desses conteúdos acabe normalizando padrões de comportamento entre os jovens: eles observam, repetem e passam a considerar aquilo aceitável.
“Isso pode aparecer em falas que minimizam o desrespeito, que retratam dificuldade em reconhecer os limites do outro e que fazem uma associação equivocada entre masculinidade e poder sobre o feminino”, afirma.
Os danos na formação de meninos e meninas
O impacto é negativo para ambos os lados: com as meninas, esse tipo de mensagem atinge diretamente o valor interno, afetando a autopercepção e a forma como elas se posicionam o mundo.
“Pode surgir a ideia de que elas precisam se diminuir ou se moldar para serem desejadas e aceitas. Isso fragiliza a autoestima, distorce a autoimagem e fortalece a busca por validação externa. Com o tempo, elas podem se afastar da própria potência e autenticidade”, afirma a terapeuta Adriana Ribeiro.
Já os meninos podem confundir amor com desrespeito e naturalizar ações que ferem, ou alimentar comportamentos tóxicos em nome de uma performance de masculinidade.
“O desrespeito pode passar a ser entendido como uma forma legítima de se relacionar. Muitos meninos aprendem mais sobre domínio do que sobre afeto e escuta emocional. Isso reduz a empatia e compromete a profundidade e a qualidade dos vínculos afetivos”, explica Ribeiro.
As especialistas destacam que a adolescência é a fase em que emoções, identidade e referências ainda estão em formação. Quando há exposição excessiva a conteúdos que desqualificam e desvalorizam as mulheres, essas mensagens podem moldar percepções sem que eles percebam, levando à internalização de padrões de relacionamento sem consciência crítica.
Em “Reliquia do 2T”, de MC Joãozinho VT, MC Vine7, MC FR da Norte e MC Dkziin, que está em primeiro lugar no ranking, a mensagem é a de que o afeto pelas mulheres não faz parte da vida dos homens que protagonizam a música.
“Então pode deixar com o pai, nóis sabe dominar/ As puta vêm em mim, é só pegar e selecionar/ Elas quer me dar, sentar, então deixa ela jogar/ Nóis não têm sentimento, os menor não quer namorar”, diz a letra.
Ao reforçar a ideia de que homens não têm sentimentos, essas músicas também evocam uma performance de masculinidade que os afasta da possibilidade de construir relações baseadas no respeito. Nesse sentido, quanto mais o jovem é exposto a determinadas mensagens, maiores são as chances de que elas se transformem em crenças, ainda que de forma implícita, segundo a psicóloga Cláudia Melo.
“Letras misóginas podem fortalecer esquemas cognitivos disfuncionais, como desvalorização do feminino, objetificação e associação de afeto com domínio e controle”, afirma a especialista.
A especialista alerta para alguns sinais que indicam a influência de músicas como essas no comportamento de meninos adolescentes: mudança na forma de falar sobre meninas e mulheres, uso de termos depreciativos ou objetificantes, dificuldade de empatia, comportamentos impulsivos ou desrespeitosos e repetição de falas prontas sem reflexão crítica.
Ainda que seja preocupante, Melo orienta que o caminho mais eficaz não é proibir o consumo de conteúdos e músicas de um tipo específico, mas abrir espaço para diálogo e reflexão.
Entretenimento que reforça estruturas violentas
A violência simbólica também atua na manutenção de estruturas sociais que colocam a mulher em uma condição de vulnerabilidade. Uma música, ouvida por milhões de pessoas, ultrapassa a barreira do entretenimento quando alimenta ideias de subjugação e degradação feminina.
Quando há outras tantas desse tipo em um ranking de audiência –como no caso dessa lista do Spotify–, o buraco fica ainda mais fundo e pode impactar a perpetuação de crimes como violência doméstica, assédio e feminicídio. O Brasil vem registrando aumentos consecutivos nos índices de feminicídio desde 2024, com recorde em 2025 e novo crescimento no primeiro trimestre de 2026.
Daniele Taveira, advogada especialista em direito da mulher, explica que o direito reconhece que a violência de gênero não começa na agressão física, mas em estruturas simbólicas e culturais que sustentam a desigualdades.
“A banalização da misoginia cria um ambiente social favorável à perpetuação da violência de gênero. O feminicídio é o ponto extremo de uma cadeia que começa na desqualificação verbal, na objetificação e na violência simbólica”, afirma.









