Tatuagens, piercings e dreads no cabelo: quem é a procuradora federal atacada na internet pelo visual
Em entrevista a Marie Claire, Gisele Bleggi revela que é a terceira vez que recebe comentários misóginos sobre a sua aparência enquanto exerce a profissão
A procuradora da República titular do 5° Ofício Ambiental do MPF (Ministério Público Federal), Gisele Bleggi, foi alvo de críticas machistas após um vídeo institucional viralizar nas redes sociais. O motivo: sua aparência física, que se destaca pelas tatuagens, pelos piercings e pelo cabelo com dreads. Esta não é a primeira vez. Ela já recebeu ondas de ofensas direcionadas ao visual em duas ocasiões anteriores, ambas relacionadas ao exercício de sua profissão.
A primeira – e mais violenta – ocorreu em 2022, enquanto mediava conflitos nas rodovias bloqueadas em Rondônia. A segunda aconteceu após participar de uma reunião com a prefeita de Aracaju, no início do ano passado.
No evento mais recente, diversas manifestações nas redes sociais tiveram caráter misógino e sexista, questionando ou desqualificando sua atuação por ser mulher. O conteúdo original foi publicado pelo prefeito de Propriá (SE), José Luciano Nascimento Lima, no dia 6 de março. Ele falava sobre um encontro com a procuradora para “fortalecer as práticas de gestão ambiental”. O post teve os comentários desativados após repercussão.
“Eram pessoas do Brasil inteiro falando, muitas nem sabem quem eu sou nem o que faço”, comenta a procuradora. “Existe um ordenamento jurídico que garante a liberdade de expressão. Mas, se você diz o que não deve, há penalidades — e elas são altas. Contra a mulher, podem ser duplicadas; nas redes sociais, até triplicadas. Já não se trata de uma injúria simples. Além disso, há responsabilização tanto na esfera penal quanto na civil”, define ela.
Gisele Bleggi possui uma carreira consolidada no MPF desde 2010. Mestra em Direitos Humanos e Desenvolvimento da Justiça pela UNIR (Universidade Federal de Rondônia), suas áreas de atuação são meio ambiente, patrimônio histórico e cultural, direitos indígenas, comunidades tradicionais e minorias.
A promotora acredita que a situação não aconteceria com o mesmo nível de violência, recorrência e repercussão, se ela fosse homem.
Muitos comentários sobre as tatuagens questionavam também a capacidade profissional da funcionária pública. Segundo Bleggi, uma das motivações para fazer as tatuagens foi justamente se aproximar e criar uma conexão maior com o público com quem trabalha.
Outro fator percebido por Bleggi como possível potencializador da violência são as redes sociais, onde as pessoas podem se esconder atrás dos perfis. “Se essas pessoas estivessem face-a-face, não teriam coragem de falar essas coisas contra mim. São os valentões das telas. E não é só valentões não, tem mulheres falando também”, lamenta ela.
A ideologia política também foi notada pela procuradora como um incendiador da discussão. Segundo ela, os três ataques sobre sua aparência aconteceram quando ela estava atuando em causas sensíveis, que mobilizaram agentes políticos ou mexeram com o setor econômico.
“Eu não tenho discurso político nem manifestação ideológica [publicamente]. Então, as pessoas não sabem o que eu penso.” Ela afirma que sua participação nas redes é puramente institucional. “O Ministério Público coloca o trabalho dos procuradores na internet e é o que me interessa. Eu prezo pela privacidade da minha vida pessoal, não quero que as pessoas saibam o que estou fazendo nem onde estou.”
O MPF é um órgão com uma corregedoria muito atuante, com metas e índices de produtividade a serem cumpridos. “A própria sociedade nos cobra constantemente, e precisamos prestar contas. Recebemos um salário público, custeado pelo contribuinte, o que exige responsabilidade. No entanto, isso também gera desgaste, porque, mesmo tentando entregar o melhor serviço possível à sociedade, há um custo emocional e mental associado a essa cobrança contínua”, comenta.
Os ataques recebidos em março, segundo ela, atrapalharam o exercício de sua função. “Em vez de trabalhar para a sociedade, eu tive que entrar em contato com a área jurídica. Mas não podia deixar passar. Isso tem que ser pedagógico, as pessoas precisam ver que existe punição. Eu sou procuradora da República, para mim é mais fácil porque eu estou acostumada com embate e questões jurídicas. Mas esse tipo de coisa pode acontecer com qualquer mulher.”
Bleggi chama a atenção para o lado positivo do ocorrido: abrir o debate. “Não vou minimizar: foi crime, sim. E se fosse com um adolescente que tem um caso de suicídio? Mas abriu um debate para coisas com as quais realmente temos que ficar atentos na luta por direitos.”
Órgãos oficiais, como a Associação de Procuradores da República e a Ordem dos Advogados do Brasil, emitiram notas de solidariedade a ela e repúdio ao teor ofensivo das mensagens. Assim como o prefeito de Propriá.
“Fiquei feliz por ser querida, eu vi até que eu era muito mais querida do que eu pensava, pela sociedade mesmo. Se eles acharam que iam me botar para baixo, saibam que me botaram muito para cima”, encerra.









