Mariana Weber (@marianaweber) é jornalista especializada em tendências em alimentação e consultora de comunicação para marcas de impacto
A ressaca dos morangos
'Mãe, você não vai falar de morango do amor, vai?!' Quando um pré-adolescente teme que você pareça cringe ao escrever sobre comida, é porque a modinha gastronômica da vez foi longe — e recuou forte. É disso que vou falar. Porque tanta onda mareia mesmo
Desconfio que viveremos — ou já estamos vivendo — uma ressaca de morangos. Diante da fruta no mercado, talvez venham à memória os reais gastos no dentista após fincar uma obturação no caramelo vermelho do amor. Ou a lembrança das idas infrutíferas à doçaria (“Tem, mas acabou”), dos dedos grudentos de calda, de celebridades posando com uma caixinha de 8 unidades vendida a mais de 2 mil reais. “Uma joia em forma de sabor”, descreveu o autor do “morango de luxo”, o confeiteiro maranhense Denilson Lima, que entrou para a profissão inspirado pelos bolos de macaxeira da avó, montou loja em São Paulo e encontrou seu nicho na arena dos influencers digitais com milhões de seguidores.
É o puro suco da ostentação das redes sociais respingando na vida offline. Mas como ficar de fora? Como decepcionar a criança que só estava pedindo uma fruta (vitrificada no açúcar, mas ainda uma fruta)? Como reagir aos posts dos amigos sem conhecer o gosto mais popular do momento? E como escolher não mencioná-lo na estreia desta coluna sobre tendências em alimentação?
O gráfico de buscas por “morango do amor” no Google mostra um maremoto. O pico acontece em 25 de julho. Um mês antes, ninguém queria saber do termo; duas semanas depois, o interesse já tinha caído para menos da metade. Ainda assim, permanecia bem acima das pesquisas por doces tradicionais como goiabada, doce de leite ou brigadeiro. Acima também do anteriormente hypado chocolate de Dubai (aquele recheado de creme de tahine e pistache). E mesmo o pistache, tão falado e vendido nos últimos meses, mal bateu na canela da febre online do morango.
Em questão de dias, agricultores recalcularam safras, preços quadruplicaram, confeiteiros grandes e pequenos comemoraram vendas, dentistas lançaram alertas, marcas (de comida ou não) correram para surfar na tendência.
Silvana Abramovay, sócia da Amor aos Pedaços, conta que, quando clientes começaram a perguntar sobre o doce, era o início do festival do morango anual promovido pela confeitaria. Para não perder a onda, em três dias a rede desenvolveu sua própria versão — na verdade, três, com morango coberto de brigadeiro branco, de brigadeiro tradicional e de bicho de pé (além de uma “uva do amor”). “Não foi uma aposta em vendas. Foi uma decisão de marca”, diz Silvana. “Porque a gente sabe que o morango do amor é uma moda. E moda passa. Mas também sabemos que tem algo maior por trás desse movimento: uma tendência mais profunda de valorização do que é brasileiro e artesanal, do que é feito aqui.”
A empresária deu entrevista para pelo menos seis veículos de comunicação sobre o fenômeno viral. Outras notícias davam conta do morango do amor sabor maracujá, do revival do gloss moranguinho, da sobremesa em formato de capivara, da promoção fraudulenta para roubar dados, do docinho nacional chegando à Europa. Será que emplacamos um sucesso internacional? Vai, Brasil.
Talvez a tendência maior seja de uma nostalgia de roupa nova. Em tempos de incertezas, queremos o conforto gostosinho do conhecido — mas vestido pra causar. Assim a maçã do amor de dia de passeio se atualiza com morango, leite ninho, música em alta e classificação de sobremesa afetiva. Sabe aquele sabor que remete a um dia feliz de criança? Faz igual, mas diferente.
Se é pra viajar no tempo, vamos longe: há quase 90 anos, Gilberto Freyre escreveu no livro Açúcar - Sociologia do Doce: “Numa velha receita de bolo ou de doce há uma vida, uma constância, uma capacidade de vir vencendo o tempo sem vir transigindo com as modas e nem capitulando, senão em pormenores, ante as inovações, que faltam às receitas de outros gêneros.”
Ainda existem doces assim? E deveriam existir?
Me aflige pensar num futuro em que vamos perder a paciência de cozinhar (ou de fazer qualquer coisa) que dure mais que um vídeo do TikTok e exija mais esforço mental que um prompt no ChatGPT. Mas vale lembrar que morango — e não só morango do amor — já foi novidade no Brasil, e ganhou escala comercial nos anos 1960, com a criação da variedade Campinas. Tem mais: a fruta que consumimos hoje surgiu na França do século 18, de um cruzamento de duas espécies americanas.
Ou seja, inovação em cima de inovação. Talvez as coisas só tenham acelerado um pouquinho.
Agora encontramos no mercado variedades maiores e mais doces que as da minha infância, quando eu pedia açúcar, chantilly ou leite condensado para dar conta da acidez — e a família dava, sem se preocupar demais com as cáries que depois virariam obturações.
Nem todo sabor (e nem todo afeto) sobrevive ao tempo. Às vezes é melhor assim. Mas torço para que o morango resista — tanto à ressaca das modinhas quanto ao saudosismo.
E, a quem revirar os olhos para o tema da coluna, dedico uma paleta mexicana de morango do amor com pedacinhos de pistache importado dos Estados Unidos. Fincada num balde de creme de papaia com cassis. Salpicada de flor de sal rosa do Himalaia. E acompanhada de chocolate de Dubai.
Em alta: doces nipo-brasileiros
Choux cream de paçoca, mousse de chocolate recheado de abacaxi com shissô, sorbet de jabuticaba com hanaumê (flor de vinagreira). Em São Paulo, a confeitaria yogashi, que une elementos japoneses e ocidentais, vem chamando atenção — e prêmios — com as criações tropicalizadas e autorais de doceiros como Vivianne Wakuda, Aya Tamaki (da Amay Patisserie) e Rafael Aoki (do Aizomê).
Expectativa x realidade: o diner de Elon Musk
Com o Tesla Diner, inaugurado em julho num prédio que lembra uma nave espacial, o homem mais rico do mundo se propôs a reinventar o fast food. Mas o negócio de comida, se não é “rocket science”, tem também seus desafios. Uma crítica do The New York Times destacou que, no dia da visita ao restaurante, as caixas em forma de Cybertruck que empacotam sanduíches acabaram no meio do serviço, assim como vários itens — entre eles o “epic bacon”, que viralizou no X em comparações entre a imagem reluzente da propaganda e a tristeza da porção na vida real. “No Tesla Diner, o futuro parece mediano”, resume o jornal.
Clássico é clássico: suflê de goiabada do Carlota
A chef Carla Pernambuco calcula já ter servido um milhão de porções da sobremesa, que, neste ano em que o Carlota completa 30 anos, foi escolhida como a melhor de São Paulo pelo Prêmio Paladar. O prato é uma adaptação de uma receita de família. “Minha avó paterna, uruguaia, fazia um suflê de goiabada de um jeito bem caseiro, rústico, num pirex grande. Ela comia com uma colherada de requeijão”, contou Carla a Marie Claire. Na versão da chef, o doce vem em potinho individual, acompanhado de calda gelada de requeijão.