Mariana Weber

Por Mariana Weber

Mariana Weber (@marianaweber) é jornalista especializada em tendências em alimentação e consultora de comunicação para marcas de impacto

Por
Mariana Weber
— de São Paulo (SP)

É noite de festa. São trinta anos do Carlota, o restaurante da chef (e colunista da Marie Claire) Carla Pernambuco. No salão, conhecidos e desconhecidos dividem mesas, trocam histórias e se ajudam na busca pela melhor luz para fotografar a comida (é 2025, e não 1995, afinal). Ouvem-se vozes, risadas, sons de talheres e copos. Os olhos, na maior parte do tempo, olham outros olhos — e às vezes passeiam. Cada prato que chega levanta sobrancelhas, altera respirações, faz salivar. Por pelo menos algumas horas, vivemos com apetite. Um alívio.

Ando com medo de perder a boca. De perdermos a boca. Quando receitas são avaliadas pelo percentual de proteínas e porções são pensadas para o estômago de quem toma remédio para emagrecer, parece que a comida sempre precisa ser útil. E é claro que é útil. Mais do que útil, essencial. Mas é também vontade.

Foi em volta do fogo e da comida que aprendemos a ser gente. Descobrimos, centenas de milhares de anos atrás, que valia a pena esperar pelo assado em vez de comer cru. Isso exigia paciência, imaginação, capacidade de antecipar mentalmente o sabor e aguentar o tempo da brasa. Mas nos recompensava com algo muito mais gostoso (fora que mais fácil de digerir e obter calorias). E então nos entregávamos ao prazer com línguas e dentes.

Não houvesse fome, apetite, vontade de comer, não estaríamos aqui.

(Não falo de fome no sentido literal. Essa, como diria Ferreira Gullar, não cabe no poema. Ou nesta coluna.)

Cenas do jantar de 30 anos do Carlota — Foto: Julia Benford
Cenas do jantar de 30 anos do Carlota — Foto: Julia Benford

É verdade que não somos mais homens e mulheres pré-históricos, e sabemos um bocado mais do que eles, em alguns aspectos. Em vez de churrasco na fogueira, temos airfryers, mercados, médicos, influencers, realities culinários, carros, elevadores e estúdios com ambientes integrados, pé-direito alto e cantinho para refeições. Não temos tempo para coletar, caçar e cozinhar alimentos. E precisamos dar nossos pulos para manter pernas que aguentem o corpo por décadas e algum estoque de colágeno na pele.

Queremos viver muito, com bem-estar — um conceito elástico que abrange de sessões de suadouro na hot yoga a drinks sem álcool e balinhas que prometem cabelo brilhoso. Deveria incluir a mesa. Com companhia e “comida que as pessoas querem comer”, na definição de Carla. Isso, mais um vinil rodando no toca-discos, conversas sobre livros (de papel!)... É nicho, mas é tendência também. Presença que chama. Ou “nostalgia do presente”, como li recentemente numa crítica do The New York Times sobre o novo livro de do escritor britânico Ian McEwan, que se passa num futuro distópico e gira em torno de um jantar festivo do passado.

Cenas do jantar de 30 anos do Carlota — Foto: Acervo pessoal
Cenas do jantar de 30 anos do Carlota — Foto: Acervo pessoal

Talvez a solução para os problemas do mundo esteja em sentar à mesa, olho no olho, comida na boca. Já pensou Lula e Trump cara a cara, pratos entre eles, cervejinha nos copos? Se 39 segundos em pé num corredor da ONU já fizeram diferença…

Tá, a bebida pode ser sem álcool. A ciência vem contradizendo aquela recomendação de uma taça de vinho por dia. Infelizmente meu corpo também.

Mas a vida não pede alguma dose de loucura?

Cenas do jantar de 30 anos do Carlota — Foto: Acervo pessoal
Cenas do jantar de 30 anos do Carlota — Foto: Acervo pessoal

Lembro da foto de uma mesa depois da refeição publicada junto com a resenha do The New York Times. A desordem dos copos sujos de vinho, a garrafa vazia, pratos lambuzados, guardanapos soltos, farelos, manchas. Vestígios de que ali se comeu com gosto. Isso pra mim é tesão.

A louça, a gente lava depois.

Carla Pernambuco e eu no jantar de 30 anos do Carlota — Foto: Acervo pessoal
Carla Pernambuco e eu no jantar de 30 anos do Carlota — Foto: Acervo pessoal
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