Comportamento
Por
Bruna Liu
, redação Marie Claire — de São Paulo (SP)

Ao descobrir a recente polêmica entre as influenciadoras Júlia Pimentel, Liz Macedo, Antonella Braga e Duda Guerra, você pode ter se deparado com a palavra “dix” -- dita pelas jovens nas redes sociais -- e se perguntado sobre o seu significado.

Apesar da briga entre as influenciadoras ter despertado curiosidade para um espaço visto como de “adolescentes”, o dix tem se popularizado entre a Geração Z num geral -- abrangendo jovens nascidos entre 1995 e 2010.

O termo vindo da gíria “dixar” se refere a um tipo de perfil em redes sociais, especialmente no Instagram, que funciona com acesso limitado. Nessas contas fechadas, os usuários dividem conteúdos mais pessoais com um círculo restrito de amigos e parentes próximos.

A proposta é criar um ambiente mais protegido e íntimo, onde é possível, por exemplo, fazer desabafos ou compartilhar situações do cotidiano sem que pessoas que você não tem tanta proximidade tomem conhecimento.

'No dix, eu sou mais real'

Para as mulheres, essa é uma forma de se expressar de forma mais real nas redes sociais. É o que diz a publicitária Pamela Bernardi, de 25 anos. Ela criou o chamado dix em 2015, quando ainda estava na escola. Naquela época o Instagram não tinha a ferramenta de “Melhores Amigos” no Stories, por isso ela quis compartilhar sua rotina em um perfil secundário.

“O que me motivou foi que muita gente ao meu redor estava criando um também. O dix virou meu espaço para postar o dia a dia, enquanto o perfil principal era mais pensado, estético. O dix era como um diário visual”, conta a jovem, em entrevista a Marie Claire.

Ali, ela publica fotos de festas, viagens, desabafos, situações engraçadas ou constrangedoras, conteúdos que, segundo ela, não cabiam no perfil principal. “Era coisa para ficar só entre amigos, mais no off”, resume. Embora sua conta principal já seja fechada, o alcance era maior: havia amigos de amigos, familiares, conhecidos. Já o dix era reservado a, no máximo, trinta pessoas. “Era um grupo seleto, só de quem realmente fazia parte da minha vida.”

Ao longo dos anos, a lista de seguidores no perfil paralelo foi mudando. “É temporário. Se a pessoa está presente na minha vida naquele momento, ela entra. Se nos afastamos, eu tiro”, diz. Só permanece quem participa ativamente de sua rotina e pode acolher desabafos ou conversas mais íntimas.

Pamela Bernardi tem um dix há 10 anos — Foto: Reprodução/ Instagram
Pamela Bernardi tem um dix há 10 anos — Foto: Reprodução/ Instagram

“As interações são diferentes do perfil principal. Como o conteúdo é mais vulnerável, as pessoas se envolvem, comentam, se preocupam. Isso gera uma troca mais íntima”, observa.

A diferença entre os dois perfis vai além da quantidade de seguidores. “O principal virou um álbum de fotos bonitas, de viagens e momentos especiais. O dix mostra a parte feliz e a parte ruim, o cotidiano mesmo. Não que eu me esconda no principal, mas ali tem uma curadoria maior. No dix, eu sou mais real.”

“É só outra forma de exposição. Continuo postando minha vida, só que para menos gente. Acho que é um movimento de exclusividade. Quando algo vira muito público, a gente tenta tornar um pouco mais privado.”

'Me sinto a blogueira dos meus amigos'

Já a analista Lorena Campos, 27, teve a ideia de criar o seu dix quando embarcou para um intercâmbio no início de 2019. Ela sentiu falta de um canal mais íntimo para manter contato com os amigos e dividir suas vivências na nova aventura.

“Eu pensei: ‘ter outro Instagram para conversar com os meus amigos seria uma forma de ter notícias de todo mundo, falar com todo mundo e contar, de uma vez, o que eu estava vivendo e vendo’”, conta.

Desde então, o dix se tornou um espaço muito mais pessoal do que o perfil principal. No perfil, ela compartilha desde receitas e treinos até unboxings, desabafos e momentos descontraídos. “Me sinto a blogueira dos meus amigos”, brinca ela, que completa: “É um lugar onde posso ser mais autêntica, mais vulnerável. Me sinto livre de julgamento.

Ela reconhece que o espaço também tem seus efeitos colaterais. “A única coisa ruim é que todo mundo sabe da minha vida e eu não sei da vida dos outros”. Ainda assim, o saldo é positivo: “Por me mostrar vulnerável e por saber que ali só tem pessoas em quem confio muito, acaba criando esse laço.”

Lorena criou o dix para mostrar sua rotina no intercâmbio — Foto: Reprodução/ Instagram
Lorena criou o dix para mostrar sua rotina no intercâmbio — Foto: Reprodução/ Instagram

“No Insta normal, tem essa coisa da vida bonita. No dix, eu mostro minha rotina, meus problemas. Às vezes desabafo, posto coisas bêbada, os bastidores de uma viagem que estou indo fazer e que queria muito e isso é importante para mim. Eu gosto disso, é muito mais real.”

A jovem explica porque prefere compartilhar sua vida no perfil secundário: “A interação no dix é diferente porque o conteúdo é diferente. Eu poderia, claro, manter essas amizades pelo meu Instagram normal, pelos directs, pelos ‘Melhores Amigos’ ou no WhatsApp. Mas quando eu falo, é muito melhor do que escrever. Acho que estar em vídeo, mostrar as coisas, ajuda muito a criar conexão. Então acredito que consigo lidar melhor com minhas amizades por causa do dix.”

'Já retirei um ex-namorado do dix'

Atualmente, a arquiteta Izabela Cardoso, 30, usa o seu dix com um “diário de treinos”, já que ela está se preparando para correr sua primeira meia maratona. “Comecei a registrar como estão meus treinos, a alimentação, o sono, de forma bem pontual. Tenho só uns 20 seguidores.

“Hoje em dia, não entra mais ninguém. A lista está fechada. Só coloco quem faz parte do meu círculo mais íntimo e já retirei quem deixou de fazer sentido, como um ex-namorado ou amigos com quem perdi o contato.”

Por ser uma pessoa mais “low profile”, ela conseguiu revelar no perfil paralelo uma faceta mais “brincalhona, leve e espontânea”. “Sou tímida e introvertida, mas com amigos e família viro uma palhaça. É essa Izabela que aparece ali.

Izabela usa o dix para mostrar sua preparação para a meia maratona — Foto: Reprodução/ Instagram
Izabela usa o dix para mostrar sua preparação para a meia maratona — Foto: Reprodução/ Instagram

Apesar do tom descontraído, ela reconhece que o vínculo com os seguidores do dix varia. Alguns interagem muito, mandam mensagens, reações, comentários. Outros só visualizam. “Pode gerar uma sensação de proximidade, mas não necessariamente cria laço”, opina a mineira. “É como estar na lista de ‘melhores amigos’, mas sem a parte da conversa.”

“Não penso no que vão achar, não edito demais, não me preocupo com estética. E acho que é isso que me faz manter esse espaço. É onde posso ser só eu sem filtro, sem máscara, só eu mesmo”, reflete.

Dix revela sintoma mais profundo da vida digital

Criar um dix pode parecer apenas mais uma moda. Mas, para a psicóloga Bárbara Alves, mestre em Ciberpsicologia e Humanidades Digitais e professora no Centro Universitário Estácio do Recife, esse movimento revela um sintoma mais profundo da vida digital: o cansaço de viver sob os olhos dos outros.

“Criar perfis secundários é uma forma de lidar com a pressão de estar sempre de frente para o palco nas redes sociais. O perfil principal virou um lugar onde se espera que você mostre o melhor de si: fotos bonitas, opiniões bem pensadas, uma vida interessante. É um ambiente de curadoria constante”, explica a especialista.

Já os perfis fechados funcionam como bastidores. “Poder escolher quem vai ver o que a gente posta é uma forma de proteção. Em um ambiente onde tudo pode ser exposto, interpretado fora de contexto ou até viralizado, poder escolher a audiência é uma maneira de garantir um pouco mais de privacidade e, junto com ela, um sentimento de segurança.

A ciberpsicóloga observa também que ter controle sobre o que se mostra ajuda a “proteger a reputação digital”, um fator que impacta diretamente em oportunidades profissionais, relações pessoais e autoestima. “Privacidade, nesse contexto, deixa de ser apenas um direito individual e passa a ser uma ferramenta de gestão emocional e relacional: um jeito de dizer ‘isso é só meu’, ou ‘isso é só para essas pessoas’. Ter esse controle é como fechar a porta do quarto quando a gente precisa de um tempo sozinho ou com pessoas de confiança. Não é esconder-se do mundo é escolher com quem queremos dividir certas partes da nossa vida.”

Mas esse modelo de convivência com as redes sociais também levanta alertas. “Criar diferentes versões de si para públicos diferentes, uma mais polida no perfil principal, outra mais livre no dix pode fazer com que a pessoa comece a se sentir fragmentada, como se nunca pudesse ser ela mesma por inteiro em lugar nenhum. Essa fragmentação pode gerar um mal-estar difícil de nomear: uma sensação de estar sempre encenando algo, sem saber direito quem se é de fato.

'Por que ser autêntico virou algo que precisa ser escondido?'

Segundo a profissional, essa tensão entre querer se mostrar e querer se preservar é uma das marcas da vida digital. “A gente vive equilibrando essa corda bamba: de um lado, o desejo de ser visto, de receber reconhecimento. De outro, o medo da exposição excessiva e do julgamento.”

Mesmo os espaços fechados, como os dix, acabam funcionando dentro de um novo código social: o da autenticidade como valor. “Não é que o dix escape das regras ele só segue outras. Em vez de filtros estéticos, usa-se o filtro da ‘naturalidade’, da vulnerabilidade estética ou emocional, o que também exige certo jogo de cena, ainda que mais sutil”, afirma.

“Isso nos mostra como o sujeito no ambiente digital está o tempo todo se adaptando a diferentes comunidades de sentido. Cada espaço, o perfil aberto, o dix, o grupo fechado, o story para 'melhores amigos' exige códigos próprios, formas específicas de se mostrar e de pertencer. O eu online é múltiplo não só por escolha, mas por necessidade: para ser aceito, precisa decodificar e atuar conforme os rituais de cada ambiente.”

Essa multiplicidade de papéis, segundo Bárbara, pode gerar cansaço e afetar a autoestima. “O fato de tanta gente só se sentir à vontade para ser ‘real’ num espaço fechado, quase secreto, nos faz pensar: por que ser autêntico virou algo que precisa ser escondido?”

Para ela, os dix não são só uma tendência passageira, mas um reflexo de algo maior. “Eles são uma forma de resistência à lógica da exposição permanente que domina as redes sociais. Estar online hoje significa estar sempre visível, avaliável, mesmo em silêncio. Essa presença constante diante do olhar alheio gera cansaço psíquico, medo de julgamento e uma autocensura que limita a espontaneidade.

“Mais do que uma moda, os dix revelam uma questão estrutural da vida digital: o quanto estamos sobrecarregados pela obrigação de sermos visíveis o tempo todo e o quanto, paradoxalmente, buscamos desaparecer de vez em quando para continuar existindo de forma minimamente autêntica”, finaliza.

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