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Por Redação Marie Claire

A congressista da Flórida Frederica Wilson compartilhou um relato pessoal na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos após o pleito tentar autorizar que farmácias deixem de vender pílulas abortivas por “objeções religiosas”. Wilson, que tem 80 anos, contou como foi obrigada a manter uma gravidez de um feto natimorto nos anos 1960, expondo ainda os impactos psicológicos e de saúde que isso a causou.

Segundo o The Guardian, Wilson discursou em sessão na última quarta-feira (11) em Washington. A casa é atualmente formada por representantes republicanos, os mesmos responsáveis por derrubar o litígio judicial Roe v Wade, que regulamentava o aborto no país desde 1973, em junho de 2022. Também tentam reverter a autorização da agência reguladora de saúde de vender o remédio mifepristona, pílula usada para realizar o aborto seguro, em farmácias de estados onde o aborto é permitido. A decisão da FDA foi divulgada no último dia 4.

Ao relembrar seu caso, Wilson quis enfatizar que a proibição do aborto não impacta apenas pessoas que não querem gestar, mas quem está passando por uma gestação de risco. No relato, Wilson afirmou que ficou grávida em 1968 após se casar, cinco anos antes da instauração da Roe v Wade. "Tudo que eu queria desde pequena era um monte de filhos que eu pudesse amar, acariciar e elevar à grandeza. [A gravidez] era a alegria da minha vida, eu estava estática", diz no início do discurso.

"Nós tocávamos meu estômago o tempo todo só para sentir nosso menino se mexer e a glória da vida crescendo dentro de mim. E então, aos sete meses, o bebê parou de se mexer. Foi logo dado como morto dentro do meu útero, e o médico era proibido por lei de induzir o parto", explicou a congressista.

Trecho de sessão em que congressista da Flórida, Frederica Wilson, relembra impossibilidade de interromper gestação de feto natimorto — Foto: Reprodução/Twitter
Trecho de sessão em que congressista da Flórida, Frederica Wilson, relembra impossibilidade de interromper gestação de feto natimorto — Foto: Reprodução/Twitter

Ela continuou afirmando que ficou arrasada por precisar manter a gestação: "Chorava todo dia e noite. Meu corpo pequeno foi invadido por dor, fraqueza e fragilidade. Eu perdi 22 quilos. Me arrastava em posição fetal ao colo da minha mãe o dia todo, e, de noite, ao colo do meu marido.”

O parto do feto natimorto só foi realizado na metade do oitavo mês de gestação. Ela relata que sentiu pânico naquele momento, e aproveitou para dizer aos congressistas que, por manter a gestação, ela poderia ter tido graves complicações em decorrência da decomposição de um feto morto em seu útero. Médicos afirmaram que ela poderia desenvolver a síndrome do choque tóxico, uma condição rara e fatal que decorre de uma infecção bacteriana.

"Depois de três dias, saí da maternidade em uma cadeira de rodas, de mãos vazias, sem bebê, sem nada", relatou. "Assisti todas as mães e famílias celebrarem a chegada de seus recém-nascidos enquanto eu estava enlutada e chorando. Fizemos um pequeno sepultamento para o bebê. Os médicos estavam com medo de que eu também teria de ser sepultada", lembrou Wilson.

Wilson diz que demorou mais de 50 anos para falar da experiência porque não queria reviver a situação. Mas se sentiu na obrigação de compartilhar o acontecimento após ver estatísticas de que, na Flórida, o impedimento ao aborto pode elevar em 29% o índice de mortes maternos. O percentual é o mesmo previsto para o estado da Geórgia.

Na Flórida, 39% das mortes seriam de mulheres negras e hispânicas. Atualmente, o estado, regido pelos republicanos, discute se deve restringir o atual limite para a realização de um aborto, que é de 15 semanas.

A congressista finalizou seu discurso se dirigindo aos parlamentares homens, principalmente da ala trumpista, que tentam desmantela o amparo ao aborto no país.

“Não nos leve de volta aos dias anteriores a Roe v Wade”, pediu. “Você não pode colocar mulheres grávidas em risco por causa do grupo de congressistas ridículos e odiosos – de maioria masculina, que não tem ideia do que é suportar a dor de um parto ou mesmo ter a coragem de carregar uma criança por nove meses –, que se orgulham de monitorar as vaginas das mulheres. Como ousam?"

Por mais que a ala da casa seja representada em sua maioria por republicanos, as legislações antiaborto precisam passar pelo Senado dos Estados Unidos, que é composto de maioria democrata. Portanto, não há chances reais desses projetos de lei avançarem. Mesmo assim, republicanos se mostraram irredutíveis e continuam as tentativas de dificultar a interrupção de gravidez.

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