Mulher acusada pela justiça dos EUA por vilipêndio de cadáver após aborto espontâneo não será indiciada
Brittany Watts, 34 anos, enfrentava acusação do Departamento de Polícia de Warren, em Ohio, por "má conservação" de restos fetais. Ela teve complicações na 21ª semana de gestação, que culminaram em um aborto espontâneo no vaso sanitário
Por Redação Marie Claire — São Paulo
Uma mulher que vive em Ohio, nos Estados Unidos, foi acusada pelo tribunal do condado de Trumbull de vilipêndio de cadáver após sofrer um aborto espontâneo. No entanto, o júri decidiu que Brittany Watts, de 34 anos, não será indiciada pelo crime por "falta de evidências" de que teria cometido um crime.
Em setembro, ela passou por complicações na 21ª semana de gravidez e chegou a buscar atendimento médico três vezes em quatro dias no Hospital St. Joseph Warren, na cidade de Youngstown. Ela teve um aborto espontâneo no vaso sanitário de sua casa.
Na última quinta-feira (11), o grande júri municipal decidiu que não havia evidências suficientes para acusá-la formalmente do crime de vilipêndio de cadáver, segundo informações da CNN norte-americana. O procurador Dennis Watkins do condado de Trumbull afirmou que Watts não violou a lei.
"Respeitosamente discordamos da aplicação da lei pelo tribunal de primeira instância", afirmou. "Recebemos algumas críticas e ataques pessoais cruéis por parte dos poucos que não entenderam que era necessário um período de tempo razoável para cumprir os nossos deveres e relataram erroneamente que estávamos buscando uma acusação neste caso", disse ainda.
A acusação havia sido feita pelo Departamento de Polícia da cidade de Warren, também em Ohio, que foi até a casa de Brittany Watts após o hospital onde ela procurou atendimento a denunciar. Se tivesse sido condenada, Watts seria sentenciada a até um ano de prisão.
A advogada da mulher, Traci Timko, afirmou a CNN que sua cliente foi "demonizada por algo que acontece regularmente na privacidade das casas das mulheres".
“Embora os últimos três meses tenham sido angustiantes, estamos extremamente gratos e aliviados pelo fato de a Justiça ter sido proferida pelo grande júri hoje. Para as inúmeras mulheres que procuraram compartilhar suas próprias histórias devastadoras de perda de gravidez – Brittany leu cada uma delas e sentiu uma irmandade com cada uma de vocês. Os e-mails, cartas, ligações, doações e orações - todos contribuíram para capacitá-la e fazê-la passar cada dia", afirmou Timko.
A acusação da Justiça dos EUA contra Brittany Watts é um demonstrativo do que vivem a mulheres, meninas e pessoas que gestam estadunidenses após a revogação da Roe v. Wade, decisão judicial que legalizava e regulamentava o aborto a nível federal, em junho de 2022.
Agora, cada estado tem autonomia para decidir se criminaliza, restringe ou mantém a legalidade do aborto em seus territórios. Nos estados onde se tornou ilegal ou mais restritivos, há dificuldades de acesso mesmo quando há risco de vida à pessoa gestante ou quando o feto não tem chances de viver fora do útero.
Com isso, as cláusulas de isenção médica também se tornaram mais vagas. Assim, profissionais da saúde temem graves consequências jurídicas.
Relembre o caso
Em setembro de 2023, Brittany Watts buscou atendimento no Hospital St. Joseph Warren devido a um sangramento vaginal. Ela estava grávida de 21 semanas e 5 dias.
A equipe médica identificou que a bolsa havia rompido prematuramente e que o líquido amniótico estava baixo. Por mais que tenham detectado batimento cardíaco do feto, foi constatado que ele era incompatível com vida extrauterina e que a gestação provocava risco à vida de Watts. Então, foi aconselhado que a gravidez fosse interrompida.
Ela buscou o serviço do hospital três vezes. Nas duas primeiras ocasiões, antes da perda gestacional, Watts deixou o hospital mesmo contra as orientações médicas. Na segunda vez que retornou, a CNN afirma que policiais e médicos passaram horas argumentando sobre qual seria a ética de induzir um parto em uma mulher que estava dando à luz de forma prematura.
Dois dias depois, Watts retornou ao hospital com sangramento vaginal e restos de placenta, após o aborto espontâneo acontecer.
A unidade hospitalar acionou a polícia de Warren, que foi até a casa de Watts. O relatório da polícia diz que Watts colocou os restos fetais do feto em um balde tampado com papel toalha, colocado próximo de sua garagem. Os detetives destacaram que o vaso sanitário de um dos banheiros da casa estava "cheio de água, sangue, coágulos e tecidos". Uma autópsia do feto concluiu que a morte aconteceu dentro do útero.
Watts foi inicialmente acusada de vilipêndio de cadáver devido a maneira como "conservou" os restos fetais. Segundo a legislação da região, "nenhuma pessoa, exceto conforme autorizado por lei, deverá tratar um cadáver humano de forma conscientemente ultrajante às sensibilidades familiares razoáveis".
Mas, segundo Traci Timko, a advogada de Watts, o Ohio não tem nenhuma lei que "exija que uma mãe que sofreu um aborto espontâneo enterre ou creme esses restos mortais". Ela destacou na ocasião que o julgamento contra Watts era "trágico e injusto".
O caso de Watts despertou atenção e grandes mobilizações de ativistas em prol dos direitos reprodutivos e de organizações médicas.
Na época, o grupo Médicos de Ohio Pelos Direitos Reprodutivos escreveu uma carta aberta ao promotor do condado de Trumbull. A entidade afirmou que o sistema de justiça criminal estava sendo usado para punir Watts.
“Estão claramente insinuando que qualquer pessoa que aborte em qualquer momento da gravidez em nosso Estado deve recuperar o tecido fetal (seja em casa, no trabalho, na escola, em um restaurante ou outro local público) e preservá-lo. Como médicos, estamos profundamente preocupados com o fato desta ação dissuadir as mulheres que sofrem abortos espontâneos de obter os cuidados médicos que necessitam e merecem", diz o comunicado.









