Chef Bel Coelho diz que perdeu clientes após posicionamento político: 'Tem gente que me boicota'
Chef, articuladora política, personalidade da internet – não necessariamente nessa ordem, segundo o Google. Nas cozinhas profissionais desde os 17 anos, a paulistana chega aos 45 com restaurante novo, pouca disposição para aturar comportamento inadequado de cliente mimado e muita vontade de valorizar ingredientes nativos no lugar da simples importação “cada vez mais cafona” de padrões europeus. “A gente precisa descolonizar o gosto”
Ao digitar Bel Coelho no Google, o buscador sugere o complemento “personalidade da internet”. Só depois vem o termo “chef” e seus restaurantes (o Cuia, no centro de São Paulo, e o novo Clandestina, na Vila Madalena).
Questionada sobre o que pensa do resultado, ela se espanta: “Não sabia. Como é que faz pra mudar isso?” Reclama, mas ri, porque é um sinal de que seu plano digital está dando certo. “Virei isso depois que comecei a produzir conteúdo para a internet, faz um ano. Eu já era conhecida na nossa geração”, diz a chef de 45 anos [para a jornalista de 45 anos]. “Mas quis me adaptar a esse universo, porque é o presente.”
Um ano atrás, Bel talvez não fosse listada como “personalidade da internet” (e amanhã talvez não seja, vai saber o humor do mecanismo de pesquisa). Mas figura pública ela é pelo menos desde 2004, quando foi apontada como chef revelação do extinto Sabuji. Nessa altura, já tinha passado por restaurantes como Laurent (estagiando, aos 17 anos), Fasano e D.O.M. e estudado no Culinary Institute of America, em Nova York. Desde então, usa os holofotes para tratar de temas que vão além do feijão com arroz (sem querer menosprezar o feijão com arroz).
Para a paulistana, cozinhar é um ato político que vai da escolha de fornecedores até a gestão dos resíduos. Se no início da carreira ela servia foie gras com pera, hoje quer saber é dos produtos nativos brasileiros. E encara como “cada vez mais cafona” a gastronomia que, estando no Brasil, se faz de muito europeia – e isso não significa que não goste do que vem de fora, mas que quer repensar o uso de elementos: dos ingredientes às louças. “A gente precisa descolonizar o gosto.” (Traduzindo em frutas: mais pitanga, uvaia e cambuci, menos laranja, maçã e morango.)
Toda cozinha é política, mas a de Bel parece mais política que a dos outros. Sim, ela segue a cartilha do chef consciente: compra de pequenos produtores, de preferência orgânicos e agroflorestais; mantém um cardápio enxuto, evitando o desperdício; busca o aproveitamento integral dos alimentos (partes que seriam descartadas viram caldo, por exemplo) e se preocupa com o destino do que sobra – no Clandestina, está contratando uma empresa para compostar os resíduos orgânicos; no Cuia, no Copan, o descarte fica por conta do condomínio. Defende ainda que os cozinheiros, ao escolher produtos de manejo sustentável, podem ajudar na conservação dos biomas. “Ao valorizar um puxuri ou um cumaru, a gente eleva esse ingrediente e a comunidade não vai querer vender a terra para o fazendeiro agropecuarista.
Seu ativismo não fica restrito à atuação nos restaurantes. É madrinha das cozinhas solidárias do MTST e apoia ONGs e ações como jantares em prol de atingidos pelas enchentes no Rio Grande do Sul. Fora que se envolve diretamente em campanhas partidárias, e não descarta assumir alguma pasta no poder Executivo.
A veia política, assim como o gosto pela boa mesa, vem de família. Isabel Aranha Coelho é bisneta de Oswaldo Aranha, ministro da Fazenda de Getúlio Vargas, chanceler, presidente da Assembleia Geral da ONU e nome de prato clássico carioca – aquele filé coberto de alho crocante e acompanhado de batatas, arroz e farofa.
Em tempos de polarização, não se erguem bandeiras impunemente. “Tem gente que me boicota, não vem comer”, diz, sentada a uma mesa do Clandestina, enquanto a equipe se movimenta ao redor preparando o estabelecimento para o jantar. O impacto nos negócios já preocupou menos. “Por um tempo desencanei, mas, quando comecei a fazer receitas no Instagram e parei de falar de política, passei a ter mais publis.” Com limites. “Já recusei muitos de marcas que não têm coerência com meus valores.”
Com 271 mil seguidores no Instagram, Bel vem maneirando o discurso no feed. Mas, se sente que é preciso, parte para o confronto até nos próprios restaurantes – “diplomaticamente”. Já teve gente convidada a se retirar dos estabelecimentos por mau comportamento. “No Brasil, sobretudo, é difícil, porque o cliente pode ser mimado, escravocrata, classista, mal-educado, racista. E eu não estou mais disposta a passar pano.”
Se é que já passou. Em mais de uma ocasião, se manifestou publicamente sobre episódios de assédio. Foi uma das vozes do movimento #primeiroassédio, iniciado em 2015, e relatou, inclusive na Marie Claire, ter sofrido abuso na infância e, mais tarde, violência por parte de um ex-namorado. “Assédio sexual, sofri de todos os tipos.” Agora vive uma espécie de livramento. “Depois que você passa dos 40, é quase como se estivesse fora do jogo. Por um lado, empodera.” Por outro... “Claro que gostaria de estar mais jovem, pelo vigor, porque as coisas caem, e no espelho você nota que já foi mais assim ou assado. Mas tem uma liberdade de não ser mais olhada só por um olhar.”
Profissionalmente, amadureceu o estilo de cozinha e de serviço. Enquanto o Clandestino, seu restaurante anterior, se centrava em menu-degustação, o Clandestina propõe pratos para compartilhar. “Os momentos mais felizes da minha vida são em volta de uma mesa, mas não de mesas formais.” A mudança de gênero no nome do restaurante tem a ver com isso: “Na nossa cultura, o feminino é mais coletivista e acolhedor”.
Como toda relação, a de Bel com a carreira tem altos e baixos. Para aguentar a pressão, recorre à terapia, já passou por remédios e hoje toma canabidiol. Em algumas ocasiões, como na pandemia, pensou em trocar a gastronomia pela psicanálise. “Foi meu companheiro que falou pra continuar.”
Ela se aproximou do violonista João Camarero nas redes, durante o lockdown, depois de comentar uma participação dele em uma live com a cantora Teresa Cristina. Mensagem vai, mensagem vem, eles se encontraram após se testar para Covid. Agora vivem juntos num apartamento onde recebem grupos de 30 a 50 amigos em noites de samba, conversa e cumbucas de canjiquinha, moqueca e outras comidas de conforto.
“O que mais me chamou atenção nela, quando nos conhecemos, foi a força”, conta João sobre Bel. “A determinação, sua certeza para com as coisas que acredita. É algo lindo de ver de perto, diariamente, e muito transformador. Na convivência com ela aprendo a me rever; meus machismos, meus egoísmos e outros tantos ismos. E isso não vem de um lugar vertical ou de apontar dedos. A gente se ouve e se trabalha.”Bel parece estar num dos altos da vida. “Sou grata. As coisas estão fluindo profissionalmente, estou bem com o João, as crianças estão bem (dois meninos, de 10 e 7 anos, de um relacionamento anterior). Sempre tem o que resolver, mas estou feliz.” Hoje, fora tudo o que já faz, tem planejados um livro e uma série sobre biomas, além da abertura de um novo Cuia, em Pinheiros. E amanhã? Como se vê em, digamos, dez anos? “Fazendo o que eu faço. Não quero mais nada. Talvez mais livros. E um centro de pesquisa de produtos dos biomas.” Ah, e uma casa no campo. “Meu sonho é ter um sítio na Mantiqueira.”
O QUE A CHEF ESTÁ GOSTANDO DE...
COMER - “A salada de PANCs, queijo de ovelha, baru, cítricos e vinagrete de mel de jataí do Clandestina.”
COZINHAR - “Caldos, como o de tucupi com pato e o de cebola caramelizada com especiarias brasileiras – puxuri, amburana e cumaru. Eles mudam tudo no prato.”
BEBER - “Amo vinhos, principalmente os naturais, como o Faccin e os da Era dos Ventos (vinícolas gaúchas do menu do Clandestina). E jerez.”
LER - “Estou lendo dois livros ao mesmo tempo. Arrabalde: Em busca da Amazônia, do João Moreira Salles, e Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo, da Eliane Brum.”
OUVIR - “Na minha playlist aqui no Clandestina tem John Coltrane, Chet Baker, Nina Simone, Billie Holiday, Rita Lee, João Gilberto, Nana Caymmi, Elizeth Cardoso, Bob Dylan, Beatles... Do João (Camarero, seu companheiro), amo Vento Brando.”
FAZER - “Exercício físico, que nunca amei e agora gosto. Faço musculação, aeróbico e ioga. E quero voltar a dançar.”









