Para compartilhar: conheça o ecolodge Fazenda Morros Verdes, no interior de São Paulo
A fazenda Morros Verdes, em Ibiúna, tem hoje cerca de 95% de Mata Atlântica, graças à recuperação promovida pela proprietária, Patrícia Sodre Haberkorn
Por Maria Rita Alonso e Isadora Pacello, redação Marie Claire
Quem vê Patrícia Sodre Haberkorn hoje, à frente de um hotel rodeado pela Mata Atlântica, não imagina que a empresária já se considerou uma workaholic. “Eu atravessava São Paulo de carro, não tomava chuva, não me expunha ao clima”, conta a Marie Claire. Por isso, quando conheceu a fazenda que atualmente abriga seu negócio, o ecolodge Morros Verdes, Patrícia afirma ter se transformado a partir do contato com a natureza.
Mas, antes de sua trajetória culminar em Ibiúna, no interior de São Paulo, ela trabalhava na empresa do pai, Ernesto Mário Haberkorn, sócio-fundador da Totvs. Então recém-formada em psicologia, Patrícia montou o departamento de Recursos Humanos da empresa. “Fiz tudo mais ou menos da minha cabeça, com base nos valores em que eu acreditava. Não tinha equipe; éramos só eu, outra menina e um estagiário”, lembra.
Isso foi suficiente para que, ao se inscrever despretensiosamente no prêmio da Exame, a empresa em que Patrícia trabalhava levasse o primeiro lugar das melhores empresas para se trabalhar — por cinco anos consecutivos, todo o tempo em que Patrícia esteve lá.
Aos 29 anos, já tendo estudado na Universidade de São Paulo e na Fundação Getúlio Vargas, Patrícia foi para Barcelona fazer um master de direção de empresas. Mas, aos 30, veio o questionamento: “Será que eu quero essa vida maluca como a do meu pai?”
Do mundo para Ibiúna
Patrícia retornou ao Brasil, onde ficou por dois meses, para desligar-se da empresa do pai antes de voltar a Barcelona — desta vez, para fazer um curso de Ayurveda. Praticante de yoga desde a adolescência, ela se interessa por abordagens holísticas da saúde.
“Tenho 51 anos e nunca tomei remédio, meu antibiótico é própolis. Estou sempre fazendo detox, porque amo me intoxicar”, diverte-se a empresária, que, embora busque um estilo de vida saudável, não se considera radical e gosta de beber e festejar.
No curso em Barcelona, Patrícia se apaixonou pelo Ayurveda. Isso a levou à Índia, para se aprofundar na terapia milenar. “Fui trazendo o Ayurveda para a minha vida pessoal. Acho importante as pessoas saberem que isso não é de outro mundo. Você tem que adaptar a sua rotina de vida, mas de um jeito bom. Não adianta forçar ou abdicar do que você gosta”, pondera Patrícia.
Mais tarde, conversando com o pai, surgiu a ideia de um projeto familiar que integrasse saúde, bem-estar, natureza e sustentabilidade. “Queríamos um lugar perto de São Paulo, com uma área degradada, que pudéssemos restaurar”, explica Patrícia. De fato, ela encontrou uma terra em Ibiúna com cerca de 30% a 40% de mata, segundo afirma.
Durante um ano, Patrícia, o irmão e o pai estudaram o clima da fazenda e a comunidade. Em 2007, ali era um dos principais polos de agricultura orgânica do Brasil, quando o conceito ainda era pouco difundido no país. A comunidade, embora muito próxima da capital paulista, nunca havia conhecido a cidade. “Começamos a interagir com aquelas pessoas, porque, para nós, era importante ter uma relação com a terra e os valores locais”, afirma Patrícia.
A construção baseou-se nos eucaliptos plantados em abundância pelo antigo proprietário da terra. O marceneiro contratado não era da região, mas ajudou a profissionalizar os trabalhadores da comunidade. “Hoje, o marceneiro que está comigo é local”, diz a empresária. Dos 45 funcionários que Patrícia emprega atualmente, apenas dois não são do bairro.
Ecolodge
Assim nasceu a Fazenda Morros Verdes. O impacto ambiental mínimo, a preocupação com a sustentabilidade e o envolvimento da comunidade local são alguns dos motivos que classificam o empreendimento como um ecolodge. Em 2014, o local tornou-se pioneiro ao implementar a primeira usina solar elétrica familiar do país.
Juntos, os 36 bangalôs — com dois quartos cada um — podem receber até 114 hóspedes, que têm liberdade para acessar cada canto dos 350 alqueires da propriedade. “Quero que os hóspedes conheçam toda a nossa terra, todos os presentes que ela tem. A propriedade tem cachoeiras de água limpa, muitas delas com nascentes na própria fazenda”, diz Patrícia.
A arquitetura é pensada para aproveitar ao máximo a exuberância da natureza ao redor. No projeto dos quartos, o ponto de partida foram as copas das árvores — não da perspectiva convencional, mas do alto, investigando como é a vida entre os galhos e folhagens. No banheiro, por exemplo, Patrícia explica que isso se manifesta na posição do espelho, que não fica acima da pia, convidando o hóspede a observar a copa das árvores.
A estrutura conta com tirolesa, quadras poliesportiva, de squash e de beach tennis, hípica e piscina semiolímpica climatizada. Tudo é propositalmente distante, para que as pessoas precisem se deslocar e se transformar nesse processo — o hotel disponibiliza bicicletas para isso.
No lago, é possível praticar natação, fazer stand up ou se aventurar de caiaque. O espaço também oferece massagens, e os hóspedes podem frequentar a horta e pescar — os produtos são preparados e servidos especialmente.
Felicidade compartilhada
A dinâmica dos hóspedes costuma ser de dispersão na maior parte do tempo, exceto nas refeições, quando todos se reúnem para contar o que aconteceu, o que fizeram ao longo do dia. Patrícia acredita que a saúde começa com a felicidade — que, para a empresária, está em partilhar as vivências, conversar à mesa. Por isso mesmo, compartilhar é a proposta central da Fazenda Morros Verdes. As experiências positivas da proprietária, a alimentação saudável, a natureza: tudo isso é dividido numa dinâmica de troca.
“Quero que as pessoas sintam a Mata Atlântica como eu senti quando conheci essa fazenda. Que tenham as sensações provocadas pela natureza, ouçam os sons no silêncio da noite, se reúnam com a família no jantar e contem: ‘Nossa, eu estava lá no meio da floresta e aconteceu isso, ouvi esse barulho e senti um medinho, um friozinho na barriga’. Isso te dá insights, te coloca em contato consigo mesmo e te permite acessar o seu interior”, diz Patrícia.
Para a empresária, o processo de recuperação e interação com a floresta é uma curtição, que ela procura aproveitar para ensinar quem visita a fazenda. Há placas espalhadas, além do chamado Circuito do Conhecimento. “Todo final de semana, os hóspedes são convidados a fazer um circuito para ver como fazemos nosso plantio e nossas construções, como tratamos o nosso esgoto, a água... É uma fazenda, está afastada do resto, então fazemos toda essa parte lá mesmo”, revela.
O objetivo de recuperar a terra se concretizou: hoje, há cerca de 95% de mata. Os hóspedes também podem participar desse processo — todos são convidados a plantar uma árvore.
De fato, o lugar é ponto de soltura de animais pela polícia florestal. Há uma diversidade de animais silvestres, como antas e jaguatiricas. “Até onça-parda já tivemos”, recorda.
Atualmente, Patrícia mora em São Paulo, mas vai sempre para a Fazenda Morros Verdes. Ela tem três filhos: duas meninas, de 15 e 17 anos, e um menino, de 12. “Meu namorado também tem três filhos, então falo que somos uma gangue [risos]. Na minha família, a gente está sempre junto. Falo que a gente só anda em bando.”
Alimentação viva
Outro diferencial da Fazenda Morros Verdes é a produção de germinados, também chamados de “alimentação viva”. Eles consistem na semente recém-estourada, antes de brotar. “São um alimento muito energético e substancial e têm uma absorção rápida pelo organismo. Tive uma experiência ótima com os germinados, então também passo isso para os meus filhos”, explica Patrícia.
A Fazenda Morros Verdes oferece a alimentação viva aos hóspedes. Patrícia conta que gosta de mesclar os conhecimentos adquiridos ao longo do tempo para potencializar as experiências. “O Ayurveda não fala em germinado, mas dá para usar, porque nas receitas há sementes. Então, uso na forma germinada”, explica.
No Ayurveda, Patrícia encontrou respostas para diversas questões de saúde e aprendeu que a alimentação não atende só a parte física. “O que nós comemos conduz também as nossas emoções, por isso me preocupo bastante com isso”, afirma.
Óleo de soja e fritura, por exemplo, não fazem parte do cardápio. “Os ingredientes são de primeira, eu me encarreguei de implantar isso e cuidar pessoalmente”, revela a proprietária. Ela é responsável por definir o cardápio e assegurar o processo. Parte dos ingredientes é plantada na fazenda, mas alguns itens são pensados para serem consumidos do bairro, a fim de valorizar a comunidade.









