Irina Cordeiro e seu cuscuz contam história do Nordeste que 'está na moda'
Criadora de restaurantes e de versos, a potiguar tenta encontrar sua brisa de mar em São Paulo ao mesmo tempo que constrói – não sem confrontos – uma linguagem “mais moderna e diversa” do povo nordestino no Sudeste. “Não vou aceitar estereótipos nem silenciar quem eu sou”
"Cuscuz é melhor que muita gente”, diz o meme e uma placa no Cuscuz da Irina, restaurante que a potiguar Irina Cordeiro abriu e tornou point nordestino na Vila Madalena, em São Paulo. Sinal dos tempos: enquanto o cuscuz nordestino (soltinho, quentinho) da chef faz sucesso na casa dedicada a ele em solo paulistano e além, o cuscuz paulista (enformado como um pudim salgado) é cancelado nas redes sociais, levando o título de pior comida do mundo num ranking popular (e é chamado de “lavagem de pia” por Irina). “O Nordeste está na moda”, diz a chef, aproveitando o momento, mas sabendo que visibilidade não corresponde a tranquilidade. “Durante muito tempo, o povo nordestino era visto como mão de obra, vinha para servir. Agora, estamos nos tornando donos, críticos, estilistas. Estamos ocupando espaços de protagonismo e construindo uma nova linguagem, mais moderna e diversa.”
Aos 36 anos, Irina se diz “mais uma retirante” na cidade grande. Uma retirante protagonista: chef (e ex-MasterChef), empresária à frente de dois restaurantes (um terceiro a caminho), produtora de conteúdo, rainha do cuscuz em São Paulo, autora de versos nas redes. “O mar é dentro de mim”, escreve em um post no seu Instagram de mais de 500 mil seguidores. Em outro: “Ela é inteligente, tem um bumbum lindo e ainda programa em Excel”.
Com ou sem domínio do pacote Office, a vida expatriada tem suas dores. “No começo, foi difícil. São Paulo pode ser muito hostil. A cultura é mais individualista, enquanto no Nordeste tudo é muito coletivo: nascemos com essa cultura de que nada se faz sozinho, e as relações são mais afetivas, mais próximas. Mas, com o tempo, encontrei outros nordestinos e formamos um coletivo.”
A saudade de casa virou caminho profissional. “Eu sentia falta de ter um lugar que servisse a comida que me lembra o Nordeste”, diz. “Comecei pelo Cuscuz, que me trazia memórias da comida da minha avó. Depois criei o Irina Restaurante (nos Jardins), que é sobre matar a saudade da comida de mar da minha terra.” O prato favorito de Irina resume tudo isso: cuscuz com coco acompanhado de peixe frito.
Sua inspiração para a gastronomia também vem da convivência com amigos da arte e da moda. “Me visto quase 100% com moda nacional, especialmente de designers nordestinos.”
Hoje, nordestinos e sudestinos buscam a comida da chef. Mas, segundo ela, ainda há preconceito. Como o que sentiu em uma crítica gastronômica recente que elogiava a comida do Cuscuz, mas ressaltava “o ambiente extremamente barulhento, em que caixas de som explodem com músicas (forró, piseiro, sertanejo) em alto volume” e classificava como lúdicos jogos de palavras no cardápio e o clima de festa do restaurante. Irina se ofendeu, e não se calou – e o coletivo nordestino em São Paulo fez coro nas redes. “A caixinha de som do meu restaurante é igual à de todos os outros restaurantes. Por que a do meu incomoda?”, questiona. “Quem é do Sudeste às vezes não enxerga os tons e as camadas do que é uma xenofobia.”
Irina enxerga – tanto nesse como em outros episódios desde que ganhou destaque nacional participando do programa MasterChef Profissionais, em 2017. “Fiquei conhecida pelo meu sotaque e pelas expressões que uso, que eram vistos como algo engraçado. Mas meu jeito de falar é só o jeito que eu e meu povo falamos, não tem nada de engraçado nisso. Não vou aceitar estereótipos nem silenciar quem eu sou.”
Cansada da “caricatura da menina nordestina”, não mudou o sotaque, mas investiu em um rebranding. Uma consultora a aconselhou a maneirar nas cores vibrantes e estampas, porque Irina estaria se escondendo atrás delas (e de falas com muita informação). Foi-se também o cabelo loiro. E a chef diz que funcionou. “Hoje, com uma imagem mais minimalista, as pessoas entendem melhor quem eu sou. Esse processo me ajudou a ser levada mais a sério, tanto na gastronomia quanto como empresária.”
Quando apareceu no reality show de cozinha, Irina já tinha uma carreira na área, como consultora de negócios de gastronomia. E quando saiu, diferentemente de colegas que aproveitaram a notoriedade para logo abrir restaurantes, resolveu investir em produção de conteúdo. O Cuscuz da Irina veio só depois, em 2022, quando já tinha fortalecido sua comunidade nas redes. Depois ainda, em maio deste ano, abriu o Irina Restaurante, dentro da Pinga Store, na Rua da Consolação. E logo mais vem outro Cuscuz, em Santa Cecília.
Sua relação próxima com a cozinha vem da infância. Filha de pai de origem portuguesa e mãe de origem indígena, Irina cresceu entre essas duas culturas (“Com uma forte influência da minha avó, que era uma mulher indígena e criou nove filhos sozinha”) e cozinhando desde que se entende por gente. “A comida sempre foi uma parte importante da minha vida e das nossas festas familiares.”
Na adolescência, reunia os amigos para preparar pratos para a turma. “A diversão era essa. A gente ia no mercado, escolhia coisas na hora e eu preparava. Mas não era tipo o hétero top que fazia risoto: eu cozinhava de tudo.”
Na hora de escolher uma profissão, optou pelo Direito – “Sou garota Prouni”, diz se referindo ao programa de bolsas do governo federal. A situação financeira da família não ia bem, principalmente depois de um problema de saúde do pai, mas, quando um dinheiro de venda de terreno permitiu, resolveu trancar o curso em Natal e fazer um intercâmbio na Itália – porque, segundo ela, era a opção mais barata para viajar e aprender outra língua. Conta que ficou hospedada na casa de uma família que adorou sua comida e a ajudou a conseguir uma bolsa para estudar enogastronomia em Florença. “Aí entendi que realmente seria cozinheira.”
O intercâmbio se estendeu de três meses para um ano e, na volta ao Rio Grande do Norte, Irina mudou para o curso de gastronomia. Passou também a trabalhar com treinamentos em importadoras de vinhos (“Virei a primeira sommelier do meu estado. Eu tinha ido estudar fora, então ficou bem chique”). Passou também por cozinhas até em 2016 abrir uma consultoria de gestão de negócios, atendendo principalmente a rede hoteleira. Então veio o MasterChef, a mudança para São Paulo, namoro com outro participante do MasterChef, popularidade, mais negócios... E um dia de setembro de 2024 Irina se vê na Praia de Maresias, no litoral paulista, para onde foi “alinhar a cabeça” para se recuperar de um “burn all” (“Quando você já se acostuma com burnout e ele não te paralisa, mas te traga”) e ao mesmo tempo dando entrevista por vídeo para a reportagem de Marie Claire.
“Estou com excesso de demandas”, diz. Sente que a prosperidade chegou, mas tem saudade da vida mais simples de antes. “Meu dilema é como encontrar essa brisa de mar dentro da minha realidade. Como chegar numa intersecção entre esse antes e o que eu tenho hoje.” Por isso a viagem para a praia. “Cresci perto do mar, e o barulho das ondas sempre me traz uma sensação de paz e clareza. Quando estou perdida ou sobrecarregada, ele me lembra de quem eu sou e me ajuda a respirar.”
Irina agora
A chef está gostando de...
Comer: “Coisas leves, como peixe cru e saladas.”
Beber: “Estou na fase da água. Nunca imaginei, estou vivendo bem Rita Lee. A sobriedade é a melhor droga que eu já provei e quero me entender sem artifícios.”
Vestir: “Alfaiataria, cortes mais retos e confortáveis. E bonezinho. Sapatão do Centro, como eu digo.”
Ver: "Mar e o sorriso das pessoas.”
Ouvir: “Silêncio.”









