'Laroyê': em AZ Marias, estilista ‘brinca com fogo’ e leva referências a Exu a desfile
Cintia Felix, estilista e fundadora da marca, apresentou coleção sobre o elemento fogo em desfile de 30 looks no Komplexo Tempo, galpão da Mooca que recebe parte da programação do São Paulo Fashion Week, neste sábado (11)
Por Nathália Geraldo, redação Marie Claire — São Paulo
Onde há fogo, há criatividade e espontaneidade. Por isso, o desfile de AZ Marias, da estilista Cintia Felix, levou mais provocações do que respostas dadas ao público que assistiu à apresentação “Florescer – Ato III: Fogo”, neste sábado (11), no Komplexo Tempo, espaço de eventos no bairro da Mooca que recebe parte da programação do São Paulo Fashion Week. O desfile, bastante teatral, apontou ainda para um caminho de representação de elementos do candomblé. Velas cenográficas, oferendas e jaquetas customizadas com a frase "Exu não é o diabo" fizeram parte do que Cintia mostrou ao público.
Cadenciados por uma trilha sonora em que prevaleceu o dancehall, intercalado com a música de artistas brasileiros, como Tasha e Tracie e Black Alien, os modelos apresentaram o elemento fogo representado nas roupas desenhadas pela criativa e fundadora da grife.
O que se viu foram roupas em tons de vermelho, preto e dourado -- entre vestidos, ternos, macacões -- e camisetas com golas em que se lia "Laroyê", saudação à entidade Exu. Um pouco do simbolismo das faíscas e das chamas do fogo altas e baixas– ora destrutivas, ora transformadoras– também esteve nas peças estruturadas e fluidas propostas por AZ Marias.
A Marie Claire, Cintia comentou que queria mesmo “brincar com o fogo” neste trabalho que segue uma série (ela já levou à passarela coleções sobre a terra e a água) de cinco atos.
“Agora, quis falar de fogo, da transmutação que ele pode proporcionar”, contou. “E enquanto estilista, estou cada vez mais avançando no refinamento de design. E por isso vamos ter materiais de baixo impacto de emissão de carbono”, destacou Cintia a respeito da preocupação com a sustentabilidade para a produção desse show.
Cannabis, corpos reais e DNA da marca
Para os convidados e parte dos profissionais da imprensa “fervendo” sob o calor que fazia no final da noite de sábado, AZ Marias também propôs debates que instigam o lado social (e racial) que a moda brasileira é capaz de servir como plataforma.
A pauta da descriminalização do porte de maconha – que está suspensa no Supremo Tribunal Federal, após o ministro André Mendonça ter feito pedido de vista do assunto – fez parte da mensagem e dos questionamentos suscitados por Cintia na coleção.
“Como uma planta ainda é criminalizada no país? E a partir de quais corpos? Nos juntamos com agências de publicidade, especialistas em inteligência de mercado canábico e médicos para trazer este tema para a maior passarela do hemisfério sul”, destacou.
A estilista também reforçou, nesta apresentação, parte das premissas que fazem parte do DNA da marca: a presença de corpos reais– contemplando a diversidade que temos no Brasil– no casting, a sustentabilidade e conexão com as crenças de matrizes africanas, referenciando as entidades Maria Padilha e Maria Mulambo, e os orixás Exu e Xangô, que também estão ligados ao fogo.
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