Corpo de 'boneca' e cliques de lingerie: como Bianca Censori, parceira de Kanye West, acende debate sobre machismo e moda?
Kanye West voltou a ser alvo de críticas após compartilhar fotos da parceira, Bianca Censori, usando lingerie. ‘Então, basicamente, você quer uma mulher para controlar?’, disse uma fã. Até que ponto o estilo e o corpo de Bianca teriam se tornado mais um "produto" do cantor, em uma lógica sexista?
Por Jaquelini Cornachioni, redação Marie Claire — São Paulo
Em um closet predominantemente branco, uma mulher é fotografada vestindo lingeries de couro. No primeiro look, os mamilos são cobertos por uma fina faixa preta e um corset cavado finaliza o visual. Nos pés, botas de cano longo. Em outro registro, a mulher aparece em posições mecânicas, como se fosse uma boneca de plástico. Ela é magra e tem um corpo padrão, quase inacessível.
As fotos, tiradas por Kanye West, são de Bianca Censori, parceira do rapper desde 2023, quando foi anunciado na mídia que os dois teriam se casado. E revelam, segundo especialistas ouvidas por Marie Claire, como a cultura de celebridade, o machismo e a opressão aos corpos femininos podem ser uma combinação explosiva quando se fala da nudez (ou da imagem sensual) que Censori exibe nos cliques feitos pelo artista. Até que ponto, em uma lógica sexista, a imagem dela não vira "mercadoria" nas redes sociais do rapper?
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Controle da imagem e do estilo: caso Kanye West
É de conhecimento geral que Kanye West é o responsável por vestir as mulheres com que se relaciona, desde Kim Kardashian, com quem foi casado de 2014 a 2022. Kim já comentou em um episódio do reality The Kardashians sobre a interferência de Kanye estilo pessoal dela e o quanto, posteriormente, isso passou a incomodá-la.
“Ele sempre me vestiu, sempre me estilizou. No início dos anos 2000, ele literalmente me mandava e-mails aleatórios com vários looks e qual deveria ser o meu estilo: ‘Só use tops curtos e saias lápis’. Isso sempre foi o nosso lance, mas também há um lado meu que quer total independência”. Quando a empresária usou um macacão laranja oversized, ela chegou a receber uma mensagem de Kanye, que dizia: “Esse look me deixou muito bravo. Preferia ir para a cadeia do que usar isso na rua."
Bianca Censori, uma nova parceira
Com Bianca Censori, que ainda não se pronunciou sobre os looks ou mesmo sobre a influência de Kanye em suas decisões fashion, a fama de controlador -- inclusive entre seus mais de 18 milhões de seguidores -- ganhou mais repercussão. Isso porque as imagens da famosa com as pequenas peças de lingerie, enquanto ele aparece com um casacão pesado ou está fora do quadro, foram descritas com legendas curtas feitas por Ye [nome adotado legalmente por Kanye em 2021].
“Sem calças esse ano”, escreveu em um post. “Derrubou algo?”, comentou em outra, onde ela aparece olhando para o chão.
Não demorou muito até que uma onda de críticas começasse a surgir. “Então, basicamente, você quer uma mulher para controlar?”, disse uma seguidora. “Queremos o antigo Kanye de volta”, pediu outra.
Vale lembrar que essa não é a única polêmica do artista, que teve diversos contratos perdidos, como sua parceria com a Adidas, após compartilhar uma série de publicações antissemitas e vestir uma camiseta com dizeres associado a grupos supremacistas.
Para a educadora e PHD em comunicação, moda e semiótica pela PUC-SP Jô Souza, o corpo seminu de Censori sendo divulgado pela conta de Kanye nas redes sociais se associa, sim, a uma cultura de opressão e de machismo. "As fotos de Kanye ovacionam uma cultura opressora, machista e manipuladora. O corpo dela é colocado como um brinquedo, que é moldado para criar os discursos midiáticos, pautados na cultura objetal do corpo", analisa.
"Sem contar que está sendo criado um 'status' de um corpo inatingível para os 'meros mortais'”, diz a pesquisadora, que também é autora do livro “Moda: Gramática da Consultoria de Imagem”.
Uma boa pitada de marketing, ainda que sendo alvo de críticas, para o casal também? A psicanalista, socióloga e documentarista Ingrid Gerolimich, ouvida por Marie Claire, acredita que sim.
"No fundo, ele é um grande marketeiro. E, se esse marketing vende, é porque existe um mercado que se apropria e lucra", pontua, abrangendo a força da cultura de celebridade e da moda para explicar o fenômeno.
"Pela semiótica, nas fotos em que a Bianca aparece com ele, conseguimos ver uma mulher totalmente travada na sua mobilidade e ele sempre usando as mesmas roupas, que são peças confortáveis. E essa lógica é algo muito presente na sociedade. Historicamente, os homens usavam terno no trabalho e as mulheres, saias. Quando ele traz algum tipo de desconforto para os looks de Bianca, o que ele diz, em outras palavras, é: ‘Eu domino esse corpo, ela obedece o que eu determino’. Ele já disse que ela não sai sem estar vestida por ele. Isso pode ser o que o Kanye pensa, mas ele não é o único".
A repercussão
Ainda que Bianca não fale sobre o tema, ou que o casal não assuma se isso é estratégia de marketing ou não para continuarem pautando a mídia, fato é que as redes sociais se alimentam desse conteúdo de imagem gerado pelos dois. Por que? Porque a polêmica vende e engaja. Não à toa, entre os comentários nas publicações de Kanye, há o público machista reforçando estereótipos de gênero como: "Que tipo de marido permite que a esposa saia assim na rua?" e “Ela nunca está vestida como uma mulher decente.”
"É importante nos perguntarmos por qual motivo um homem como ele, que vomita todo esse machismo há muito tempo, ainda tem essa relevância no mundo da moda. Tem quem consome isso e, sem dúvidas, tem quem fomente. A polêmica vende”, destaca Gerolimich.
E a moda com isso?
Dito isso, no caso "Kanye West e estilo de Bianca Censori", não dá para tirar a moda da equação; pelo contrário, ela é ingrediente principal ao lado dos princípios que regem a publicidade (especialmente em tempos de internet). Um exemplo: o dia em que o casal deu uma voltinha pelas ruas com Censori usando um macacão transparente e apenas um travesseiro como peça para cobrir a frente do corpo. O look, interpretado por algumas pessoas nas redes sociais como desconfortável para ela, gerou uma série de comentários, principalmente pelo fato de Kanye estar coberto e, aparentemente, confortável com a escolha de roupas dele.
"A nudez comunica muito e traz a princípio uma ideia de liberdade do corpo feminino, como se esse corpo pudesse performar das mais diferentes maneiras, mas não é uma verdade absoluta quando lembramos do machismo na sociedade", analisa a psicanalista. "Afinal, que liberdade nós temos de usar a nudez se boa parte da sociedade ainda acredita que isso justifica uma violência?".
“A dominação patriarcal se dá em muitas esferas e a moda é uma delas. Isso acontece de forma não-verbal, mas não deixa de ser menos poderoso. Essa dominação muda, de certa forma, ao mesmo tempo em que o capitalismo muda também, e a moda tem uma relação muito intrínseca com isso tudo. Assim, se inicia uma domesticação daquele corpo".
"O Kanye West é uma simbologia de como funciona a indústria da moda, que pode ser machista em relação às mulheres. E o fato de que tudo o que o casal faz ainda tem grande repercussão, só mostra quanto a indústria da moda ainda tem a evoluir.”
Mulher boneca x mulher real
Julgar Bianca pelas roupas que ela veste ou pelos cliques feitos pelo parceiro não leva a nada. A questão, dizem as especialistas, é olhar para o sistema cultural em que estamos inseridos e refletir sobre a avalanche de "mulheres bonecas" que têm surgido nos últimos anos e como isso tem ditado os rumos da moda global.
A especialista em Diversidade e Inclusão, Doutora em Comunicação e Práticas de Consumo (ESPM-SP) Aliana Aires ressalta que se não bastasse a pressão inerente à moda ligada ao consumo, há a pressão da "moda do corpo", a qual as mulheres são submetidas por conta do sistema patriarcal. Dentro disso, um recorte de classe: através dos corpos perfeitos, feitos com procedimentos estéticos ou extremamente magros, celebridades, influenciadores ou marcas de moda se diferenciam do restante da população. Reparar nisso é evitar cair nas ciladas estéticas a que somos expostas constantemente.
“É a lógica da exclusividade, que acomete bem mais pessoas ricas, que querem se distanciar e estar em um patamar diferente. Nós não temos acesso a procedimentos estéticos caríssimos, remédios, cirurgias. Temos que trabalhar, o nosso dia a dia é repleto de tarefas. Essas pessoas que possuem um capital maior e mais forte, não. Elas têm tempo para malhar, nem sempre são obrigadas a trabalhar para o próprio sustento. A exibição do corpo padrão, que exige muitos sacrifícios, nos mostra quem de fato consegue sustentar esse corpo irreal. É 2% da população, talvez nem isso.”
E o pior: nem dá para saber se o corpo é real. "O corpo, o estilo e até mesmo a nudez da Bianca são produtos. Não tem como sabermos o quanto daquilo é real, se é uma foto com edição de imagem, Photoshop. Para o negócio dele, é ótimo. O Kanye não está vendendo a imagem de uma mulher do dia a dia, que com certeza não usa essas roupas a todo momento, não anda nua ou com peças transparentes dentro de casa. Essa é a imagem que foi construída, e digo o mesmo de Kim Kardashian, por exemplo. Ele vende um corpo midiático, não consumimos uma pessoa real".
"O corpo que o Kanye sempre exibe ao seu lado é aquele com modificações, como se essa fosse a moda do momento: harmonização facial, a boca de uma determinada maneira. Tudo é moldável”, continua Ingrid.
Por isso, é tão importante que os corpos das mulheres sejam humanizados, inclusive na mídia e nas redes. “Nosso corpo não precisa ser um produto e não deve servir a uma função social alguma”, conclui a psicanalista.









