‘Tentamos trazer serenidade à passagem’: como doulas de morte atuam para proporcionar leveza ao fim da vida
Consideradas novas profissionais, elas prestam suporte para que pessoas que estão morrendo encarem o fim de maneira acolhedora, além de ressignificar a morte como uma jornada final sem problemas para os entes queridos que ficam. Na França, 70 thana doulas, como são chamadas, trabalham para mudar a face do luto e acompanhar quem está no fim da vida com dignidade e paz antes da grande passagem
Por Por Nadia Hamam, de Marie Claire França, Com Tradução de Camila Cetrone, de Marie Claire Brasil
Depois das doulas de parto, surgem agora as doulas de morte. Também chamadas de thana doulas, elas são treinadas para facilitar a última etapa da existência; aquela que nosso medo coletivo da morte relega a uma zona cinzenta.
"Antigamente, éramos acompanhados por vizinhos e membros da família. As doulas compensam a distensão dos laços criada pelo estilo de vida contemporâneo", explica Marie-Christine Laville, diretora do instituto Deuils-Doulas de Fin de Vie (Doulas de Luto de Fim da Vida, em português literal), o único órgão de formação desse tipo na França. "Quanto mais isolada a pessoa estiver, mais útil pode ser a nossa presença".
A ex-professora de educação especial acompanhou vários de seus entes queridos em seus momentos finais desde a tenra idade. "Eu realmente teria precisado de uma doula naquelas ocasiões; de alguém que pudesse nos guiar, conversar conosco e até mesmo assumir a tarefa para que pudéssemos respirar um pouco", diz ela.
Embora a profissional esteja satisfeita pelo fato de a França oferecer hoje cuidados paliativos de qualidade, ela destaca a necessidade real de apoio emocional, psicológico e até espiritual, entendido em um sentido amplo. "Não somos uma seita. Nossa abordagem é laica, sem confissão. Simplesmente infundimos humanidade, cultivamos trocas em torno do sentido da existência. Melhor ainda, quanto mais acompanhamos a pessoa no limiar de sua vida, mais ela pode se acalmar, dizer coisas que lhe são essenciais".
Aprender a falar abertamente sobre o fim da vida
"Meu objetivo é estabelecer uma relação de confiança para discutir a morte com total liberdade, independentemente da idade", explica Delphine Mottais-Dvorak. A doula recebe todas as palavras e emoções que não conseguem ser expressadas em outros lugares, bem como os desconfortos ou dores que nos constrangem.
Ela destaca as dificuldades onipresentes ao se falar sobre o fim da vida. "Algumas pessoas estão cercadas, mas ainda se sentem sozinhas. Podem enfrentar uma forma de negação por parte dos familiares", descreve. O desejo de falar sobre a morte está presente, mas não ousamos. Tememos assustar ou entristecer os filhos, agora adultos. "O acompanhamento oferece um espaço para falar sobre tudo, sem tabus. A ideia é ajudar a compartilhar desejos, necessidades", menciona a doula. "Não se trata de substituir a família. Ajudamos a fazer a conexão, a manter a vitalidade nos relacionamentos".
Quando as pessoas no fim da vida não são mais abraçadas ou tocadas, "elas se sentem mortas antes de morrer".
"Temos a sorte, na França, de ter cuidados paliativos bem desenvolvidos, com um controle eficaz da dor. Como apoio, podemos ajudar a harmonizar emocionalmente, reduzir a ansiedade ou o medo", afirma a doula Noémie de Mul. "Isso evita um estado de tensão que poderia tornar desagradável o final da vida. No fim das contas, não estamos muito longe do parto. Tentamos trazer serenidade à passagem".
Segundo Delphine Mottais-Dvorak, quando as pessoas no fim da vida não são mais abraçadas, tocadas ou ninguém mais fala com elas, "elas se sentem mortas antes de morrer". "Não nos limitamos a falar, ouvir ou segurar a mão. Podemos ajudar no caminho interno, juntos. Permitir que se despeçam, expressem amor, perdoem ou se perdoem", ilustra Marie-Christine.
Partir serenamente permite que a família viva melhor o luto. A thana doula pode, inclusive, apoiar aqueles que ficam em sua jornada pela dor e tristeza, para que possam seguir em frente, apesar de tudo.
Aliviar desconfortos e ajudar nas providências
Graças à sua formação inicial em naturopatia, Noémie de Mul também proporciona alívio para alguns desconfortos físicos e emocionais.
"Não oferecemos nenhum serviço de natureza médica, mas práticas suaves podem complementar os tratamentos em andamento", esclarece. Quando a pessoa já está inconsciente, a profissional pratica, por exemplo, a massagem terapêutica "porque o indivíduo às vezes pode perceber essas sensações, mesmo na inconsciência. Nem todos se sentem confortáveis com um corpo no fim da vida".
Até os últimos momentos, a thana doula pode aconselhar a pessoa no fim da vida sobre questões administrativas, algumas escolhas e decisões a serem tomadas, garantir o respeito às últimas vontades, organizar uma cerimônia, um café-luto e vigílias.
"O percurso nunca é o mesmo. Depende, é claro, da doença que leva à morte, mas também da personalidade e do tempo que pudemos compartilhar antes do fim da vida", observa Noémie Le Mul. Algumas pessoas a procuram cedo o suficiente para antecipar muitas coisas, expressando possíveis desejos ou necessidades. "Alguns têm o desejo de comer algo específico, ou de ver um lugar ou alguém, de realizar algo. É ótimo poder oferecer isso", diz, sorrindo.
Os familiares também precisam de atenção
Às vezes, é o círculo próximo de quem está morrendo que busca os serviços da thana doula. Alguns precisam de ajuda no processo de luto.
"As primeiras pessoas que acompanhei foram jovens afetados direta ou indiretamente pelo atentado ao Bataclan, em 2015", lembra Marie-Christine Laville. Outros querem contar com alguém de confiança que possa assumir o papel.
A thana doula pode, então, aconselhar a família, informá-los e orientá-los em suas escolhas; além de discutir sobre os medos e ansiedades da pessoa no fim da vida. "Injetamos suavidade e fluidez nesses momentos difíceis. Se a pessoa que está partindo se sente mal, os entes queridos também se sentem mal, e vice-versa. Garantimos que todos se sintam tranquilos", explica Noémie Le Mul.
"Os familiares nem sempre se atrevem a tocar esse corpo que não é mais exatamente o mesmo, até mesmo em sua cor. Posso trabalhar com óleos essenciais, em massagem, difusão ou olfação, quando não há contraindicação".
Estar presente, tanto de dia quanto de noite
Porque "a morte raramente chega no horário comercial", Noémie de Mul oferece uma fórmula única de "disponibilidade": sua caminhonete especialmente equipada permite que ela estacione em frente à residência onde é solicitada. Por vários dias, se necessário.
"Posso oferecer acompanhamento por vídeo ou ir pessoalmente rapidamente, conforme solicitado. Podem me chamar de dia ou de noite, por exemplo, para ajudar a pessoa no fim da vida a se trocar", explica a acompanhante. Às vezes, não lhe pedem muita coisa, mas sua presença tranquiliza a pessoa que está morrendo e seus entes queridos.
"Os serviços de Hospitalização Domiciliar (HAD) podem ser muito ágeis, mas nem sempre conseguem chegar em meia hora. Além disso, é preciso ter antecipado a situação e preenchido um formulário com antecedência", detalha a profissional, cujos 95% dos clientes enfrentam câncer. "Assim que o oncologista menciona os cuidados paliativos, é melhor apresentar um formulário para o HAD. É também o momento de refletir sobre o que se deseja para o futuro e considerar as diferentes situações adversas que podem ser enfrentadas", aconselha Noémie de Mul.
Um apoio alternativo e complementar ao sistema de saúde
Para Sue Phillips, thana doula e Vice-Presidente da Associação Canadense de Fim de Vida, morrer não é um evento. Pode ser uma jornada por si só, e deve ser um assunto abordado antes de uma doença aparecer.
Como ela explica em uma entrevista ao Conselho de Cuidados Paliativos da Universidade McGill, consultar uma doula pode contribuir para esclarecer nossas crenças e valores, o local onde gostaríamos de morrer e de que maneira.
Muitos procedimentos antecipados são mais fáceis de serem realizados quando ainda nos sentimos relativamente bem. Para aqueles desconfortáveis com o termo "doula de fim de vida", ela aconselha usar a expressão "apoio alternativo durante uma doença que limita a expectativa de vida". Em última análise, o objetivo dessas profissionais é fazer parte integrante do círculo de cuidados de saúde. "Todo mundo merece ter uma doula", diz a especialista, que atua em Ontário.
É urgente desenvolver apoio não médico para preencher lacunas emocionais, práticas e espirituais
Com o sistema de saúde concentrado, principalmente, em cuidados médicos, é urgente, segundo ela, desenvolver apoio não médico para preencher lacunas emocionais, práticas e espirituais.
Nos Estados Unidos e no Canadá, essa profissão é reconhecida plenamente, a ponto de thana doulas poderem atuar em hospitais da mesma forma que enfermeiras. Na Inglaterra elas também têm um status mais oficial do que na França, em parte graças ao trabalho de Felicity Warner. A ex-jornalista fundou a escola Soul Midwives (Parteiras de alma, em português) para oferecer amor e dignidade a quem está morrendo.
Na França e no restante da Europa, formações foram lançadas pela suíça Rosette Poletti, uma enfermeira em cuidados gerais e psiquiatria que realizou pesquisas sobre o assunto nos Estados Unidos. A França conta com cerca de 70 profissionais em 2023, incluindo alguns homens.
"Também temos promovido formações na Bélgica. Algumas pessoas se comprometem com o curso para serem capazes de apoiar seus entes queridos ou para melhor acompanhar seus pacientes, especialmente nas profissões psicológicas e médicas", detalha Marie-Christine Laville.
Necessidades em ascensão na França
A nova profissão está avançando discretamente na França, onde a população continua envelhecendo e onde se prevê, para o futuro, um aumento da solidão entre os idosos. De acordo com o Atlas dos Cuidados Paliativos e do Fim de Vida de 2023, a parcela de pessoas com 75 anos ou mais dobrou nos últimos 30 anos. O número de óbitos aumentou cerca de 20% no mesmo período, o que representa quase 100 mil pessoas a mais a serem acompanhadas no final da vida.
"Quando trabalho no hospital, é a pedido das famílias", destaca Noémie Le Mul. "As unidades de cuidados paliativos ainda não conhecem nossa existência. Todos nós teríamos interesse em construir uma rede comum.”
A profissional se aproximou de uma unidade de cuidados paliativos para oferecer seus cuidados de suporte aos pacientes atendidos por eles. Em estudo, há uma convenção que permitiria a eles assumirem parte da remuneração.
"Ouvi falar dessas doulas em podcasts, mas nunca as encontrei em hospitais e cuidados paliativos", observa a Dra. Marjorie Dervaux. A jovem médica, que dedicou sua tese às mortes em domicílio de pacientes com câncer na França, observa que, na prática clínica diária, a maioria dos pacientes expressa o desejo de voltar para casa, para continuar seu tratamento, ou com o desejo explícito de falecer lá.
Devolver a humanidade ao final da vida
A médica menciona especialmente um estudo japonês recente sobre os benefícios do final da vida em casa: entrevistas com familiares enlutados revelam que pacientes, com todas as patologias consideradas, que morreram em casa, foram mais capazes de ter uma "boa morte" do que aqueles que morreram no hospital. Eles conseguiram respeitar a escolha do local preferido do paciente e sentiram um estreitamento dos laços familiares.
Os entes queridos também perceberam no paciente mais esperança e bem-estar, uma maior confiança em profissionais de saúde e a sensação de terem sido tratados com respeito durante os cuidados.
"75% das pessoas querem morrer em casa", reforça Marie-Christine Laville. Na realidade, 53% dos franceses morrem no hospital. O lançamento em 2021 do Plano Nacional 2021-2024 para o Desenvolvimento dos Cuidados Paliativos e Acompanhamento do Fim de Vida reflete a vontade do governo de abordar a questão. Em 2022, são contabilizados 384 pesquisadores e clínicos trabalhando na área do fim de vida e cuidados paliativos na França, onde 56 projetos de pesquisa e 90 teses estão em andamento. A dinâmica e a expertise das thana doulas serão abraçadas?









