Doula da morte: conheça o profissional que oferece apoio no fim da vida
Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
Nos últimos anos, popularizou-se no Brasil a atividade da doula, como sinônimo de alguém que ampara mães no período da gravidez, parto e pós-parto. No entanto, esse profissional pode desempenhar outra função menos conhecida: a de apoiar pessoas na fase final da vida.
De acordo com Associação Internacional de Doulas de Fim de Vida (Inelda, na sigla em inglês), o papel desses trabalhadores é “fornecer companhia, conforto e orientação para aqueles que enfrentam uma doença terminal ou morte”. O suporte abrange cuidados emocionais, espirituais e práticos, não médicos.
Entre as funções práticas da doula da morte, segundo a Inelda, estão:
- Oferecer a oportunidade de falar sobre a morte;
- Explorar o significado da vida e do legado da pessoa que está morrendo;
- Discutir e apoiar o planejamento dos cuidados de fim de vida;
- Incorporar tradições ou criar novos rituais para marcar momentos especiais;
- Auxiliar com cuidados físicos e práticos para aliviar o fardo dos cuidadores;
- Explicar os sinais e sintomas do processo de morrer;
- Orientar as pessoas nos estágios iniciais do luto.
“A equipe de cuidados paliativos, que engloba médicos, enfermeiros, nutricionistas e psicólogos, trata o adoecimento da pessoa. Nós olhamos para o ser humano”, diz a doula da morte Tatiana Barbiere Santana, idealizadora do amorTser, escola para esses profissionais, em Porto Alegre.
Tatiana começou a trabalhar com gerontologia e cuidados paliativos depois de atuar como enfermeira de emergência e UTI por mais de 15 anos. “As instituições hospitalares, principalmente as UTIs, são os piores cenários de morte, na questão da obstinação terapêutica”, conta.
No atendimento de idosos, a doula deparou-se com a falta de preparo dos profissionais de saúde para lidar com a finitude dos pacientes, além das dificuldades enfrentadas pela pessoa e seus familiares.
Em 2019, a amorTser abriu a primeira turma para doulas da morte. O curso aborda, entre outros temas, mitos sobre a finitude, escuta e diretivas antecipadas de vontade e luto.
Assuntos que ninguém quer falar
A doula da morte discute com o paciente assuntos que, normalmente, familiares têm dificuldade de abordar. O indivíduo deseja ser cremado ou enterrado? Ele permite que a equipe médica o entube e reanime? Tem alguma pessoa com quem gostaria de fazer as pazes antes de partir?
“Quando você recebe um diagnóstico de uma doença que ameaça sua vida, a rota muda totalmente. Aquilo que era importante deixa de ser. O trabalho da doula é construir um plano de cuidado para o final de vida, focado no que faz sentido para a pessoa”, explica Santana.
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Ela cita como exemplo uma paciente que estava determinada a comprar um terreno para construir uma casa, até receber a notícia de que teria pouco tempo de vida, por causa de um câncer. “Essa mulher, agora, deseja encontrar um lugar onde possa pisar na terra, pegar sol e se conectar com a natureza”, exemplifica.
Para a rabina, capelã e doula de fim de vida Elca Rubinstein, que fez tanto o curso da Inelda, nos Estados Unidos, quanto da amorTser, a preparação para a morte é um assunto mais presente entre americanos do que entre brasileiros.
“Os idosos lá moram sozinhos, porque os filhos saem de casa aos 18 anos e se mudam para outras partes do país. A doula vira um interlocutor importante tanto com a família quanto com a equipe de cuidados paliativos quando as coisas começam a ficar mais difíceis”, afirma.
Nos Estados Unidos, as doulas de fim de vida — como Elca prefere chamá-las — são uma profissão regulamentada e certificada, reconhecidas pelo seu valor social.
Já por aqui, onde até mesmo o cuidado paliativo é uma conquista recente e ainda limitada a poucos hospitais, há menos espaço para atuação das doulas. “O Brasil tem um longo percurso a percorrer, mas já é um começo”, diz.
Para Rubinstein, tanto a doula do parto quanto a do fim de vida lidam com emoções transcendentais: “A mulher que dá à luz está conectada a uma energia cósmica. A pessoa que está morrendo, também”.
A rabina reconhece que a partida costuma ser mais complicada do que a chegada, mas não precisa ser assim. “Quando os bebês nascem, eles choram e a família sorri. Numa boa morte, a família chora, mas a pessoa que vai embora sorri. Se você está bem preparado (para morrer), consegue olhar para trás, mandar beijo para todo mundo que fez parte da sua vida e dizer: valeu a pena”, aponta.









