Rabdomiólise e os perigos da busca pelo 'corpo perfeito': 'Poderia ter morrido', diz jovem
Conhecida como 'doença da urina preta', a rabdomiólise é uma condição que vem se tornado cada vez mais frequente. Provocada pelo excesso de exercício físico, a condição médica caracterizada pela ruptura do tecido muscular esquelético pode levar a óbito
Por Juliana Picanço, Redação Marie Claire — São Paulo
Júlia tinha acabado de mudar de cidade e começar um novo emprego quando foi diagnosticada com rabdomiólise. A produtora de projetos internacionais, de 35 anos, sempre gostou de praticar esportes, mas sabendo respeitar os seus limites. Até que, em meio a vários recomeços, se arriscou em uma nova atividade e foi surpreendida com as consequências do esforço um pouco maior do que estava acostumada.
“Fiz natação por dois anos e até ficava cansada depois da aula, mas não tinha dor, de modo geral. Até que fui fazer uma aula de spinning [exercício com aulas focadas em resistência, força, intervalos, alta intensidade e recuperação, que envolve o uso de uma bicicleta estática] e senti muito. No começo, achei que era normal, mas depois, comecei a sentir uma dor muito forte. Era difícil descer as escadas, sentar. Até que um dia, fui no banheiro e quando dobrei o joelho, comecei a suar frio por causa da dor. Vi que a urina também estava mais escura. Levantei, fui pegar uma água e desmaiei na cozinha”, conta.
A rabdomiólise, também conhecida como "doença da urina preta", é uma condição médica caracterizada pela ruptura do tecido muscular esquelético, que resulta na liberação de substâncias como a mioglobina na corrente sanguínea, e que pode ser causada por um esforço muscular intenso. O exagero nos treinos provoca uma lesão das células musculares, que liberam uma substância, chamada mioglobina, no sangue. É ela que dá a cor escura à urina e afeta os rins.
“As causas mais comuns de rabdomiólise incluem lesões traumáticas graves, exercício intenso e prolongado, reações adversas à medicamentos, infecções virais ou bacterianas, desidratação e condições médicas como crises convulsivas, choque elétrico - muitas vezes em associação”, explica a Dra. Carla Dionello, reumatologista e presidente da Sociedade de Reumatologia do Rio de Janeiro (SRRJ). “Dentre os sintomas, estão a dor muscular intensa, fraqueza, rigidez, urina escura, diminuição da produção de urina e, em casos graves, insuficiência renal. Os sintomas podem se manifestar algumas horas após o evento desencadeante, mas podem levar até 24 a 72 horas para aparecer”, complementa.
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Júlia conta que já tinha ouvido casos de pessoas diagnosticadas com a condição, mas não imaginou que a situação era tão grave. “Fiquei três dias no hospital. Meu CK [enzima do corpo humano que está presente nos músculos e em outros lugares do corpo, e que se elevada, pode ser um marcador de infarto do miocárdio, miocardite, hipertermia e distrofia muscular] estava muito alto. Lembro que a médica chegou e disse: ‘O maior risco é a falência renal. Se não baixar, vou ter que te colocar na UTI e talvez precise fazer diálise’. Nunca tinha sido internada. Na hora, comecei a chorar”, relembra.
“A mioglobina é uma proteína presente nas células musculares e tem a função de armazenar e transportar oxigênio dentro das fibras musculares. Ela desempenha um papel importante no fornecimento de oxigênio para os músculos durante a contração e ajuda a proteger as células contra danos causados por altos níveis de oxigênio reativo, como os radicais livres. Quando ocorre uma lesão muscular significativa, como na rabdomiólise, a mioglobina pode ser liberada em grandes quantidades na corrente sanguínea, podendo sobrecarregar os rins e causar danos potencialmente graves”, explica Carla Dionello, que reforça que as complicações associadas à condição podem incluir insuficiência renal aguda, desequilíbrios eletrolíticos, coagulação intravascular disseminada (CIVD) e síndrome compartimental. Alguns casos mais graves podem evoluir para óbito.
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“A gravidade da rabdomiólise pode ser classificada em leve, moderada ou grave, com base nos níveis sanguíneos de CK e no dano à função renal, sendo muitos casos graves, necessitando de suporte de terapia intensiva e hemodiálise”, complementa.
A busca pela “perfeição”
A busca pelo perfeito não é de hoje. Desde a antiga Grécia, a procura incessante pela capacidade intelectual elevada e corpo sadio fazem parte da cultura do homem. “Na nossa época, vislumbramos a magreza como sinônimo de beleza exuberante, altamente influenciados pela mídia, que afirma de diversas formas que um corpo perfeito pode ser alcançado com exercícios físicos de alta intensidade, dietas a todo custo, medicamentos etc.”, explica Rosângela Casseano, psicóloga, terapeuta cognitivo comportamental e CEO da PsicoPass.
“A cada dia surgem mais dietas e tratamentos medicamentosos para atingir esse objetivo, qualificando que se a pessoa atingi-lo, terá muita facilidade (e vantagens) na vida social, profissional e amorosa, prometendo felicidade. Com tanto esforço, temos visto cada vez mais pessoas desenvolvendo doenças com distúrbio alimentar, se machucando com treinamentos sem limites e sem acompanhamento profissional além de aumentar o risco de rabdomiólise, doença essa que afeta as fibras musculares prejudicando os rins”, complementa.
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Mesmo procurando sempre respeitar os seus limites, Júlia conta que o ambiente de competição nas aulas de spinning fez com que ela fizesse um esforço um pouco maior do que deveria. “A aula em si já começa de uma forma muito intensa, sem aquecimento. Mas a atmosfera é muito competitiva. A menina que estava na minha frente, por exemplo, estava muito determinada e fui tentar acompanhar, mas não dei conta. Também tem um ranking, que incentiva mais ainda essa competição entre os alunos. Além de ter um discurso de se desafiar. A professora dizia: ‘Qual foi a última vez que você se desafiou? Que você fez algo novo?’. Fiquei pensando sobre isso e, realmente, mudei de cidade, comecei um novo emprego, não tenho que provar nada para ninguém. Me conheço e sei quais dos meus limites eu estou disposta a ultrapassar. Algumas pessoas podem ver como uma competição saudável, mas depende muito de onde a sua cabeça está”, desabafa.
“Meu corpo mudou muito nos últimos anos e estou desconfortável com ele agora. Não emagreci fazendo natação, mas me sentia melhor. Comecei na pandemia e foi muito importante fazer uma atividade física, me sentia leve. Quando mudei de cidade, procurei algo que tivesse o mesmo retorno. Nunca me considerei uma pessoa que é muito afetada pela pressão estética, mas com as mudanças, acredito que ficamos vulneráveis e suscetíveis a pressões. Por isso, ao invés de começar com algo mais leve, já tentei ir direto em algo pesado, porque estava sentindo que estava parada, que precisava compensar o peso que ganhei, precisava sentir as mudanças no meu corpo etc.”, complementa.
Expectativas irreais de beleza e condicionamento físico pode afetar e muito não só a autoestima, mas também a saúde mental das pessoas. “É cada vez mais comum encontrarmos pessoas com transtorno dismórfico corporal. No Brasil, estima-se que há cerca de 4 milhões com essa patologia”, reforça Rosângela.
Prevenção e cuidados
A prevenção da rabdomiólise está diretamente relacionada a práticas seguras de exercícios físicos. Saber os seus limites, ter uma boa hidratação e contar com a orientação de um profissional nos treinos são algumas medidas importantes para evitar complicações.
“Também é essencial fazer um aquecimento adequado antes das atividades, evitar o exagero ou treinos muito intensos, hidratar-se muito bem e regularmente durante o exercício e parar a atividade se sentir dores musculares excessivas ou sintomas preocupantes”, complementa Carla. Segundo a especialista, depois do diagnóstico, é importante descansar e evitar atividades físicas intensas até a completa recuperação. “O acompanhamento médico pode ser necessário para monitorar a função renal e garantir uma recuperação adequada”, complementa.
Além dos cuidados físicos, também é necessário cuidar dos impactos emocionais que podem surgir após uma experiência negativa com a lesão. “Qualquer experiência extremamente negativa, que tenha trazido muita dor, fadiga e ameaça de morte pode gerar diversos fatores de risco psicológicos, como a mudança brusca de comportamentos, gerando falta de vitalidade, impotência emocional, medos, fobias, estresse, sintomas esses que se não tratados de forma coerente com multiprofissionais podem desenvolver em grande escala patologias”, explica Rosângela, que reforça que a falta de alerta à essas questões faz com que problemas como estes sejam ainda maiores.
“Estamos muito longe dessa sensibilização por parte da nossa cultura para diminuir a pressão sobre corpos idealizados. Há uma verdadeira indústria da beleza que detém grande parte da riqueza na promoção de dietas, vestuários, tratamentos diversos: desde maquiagens, suplementos, medicamentos, cirurgias entre outros que não tem interesse em quebrar esse paradigma”, complementa.
Hoje, já em casa, Júlia conta que entende a importância de tomar mais cuidados com os próprios limites e confessa que ainda tem receios durante a recuperação.“Ainda sinto um pouco de dor, mas já estou 80% melhor. Não tenho coragem de me agachar e só de pensar em pedalar uma bicicleta de novo, já fico nervosa. Ainda estou processando o quanto isso tudo foi perigoso. Eu realmente poderia ter morrido. Nunca tive problema de saúde e acontecer isso tudo de uma vez, foi assustador. Durante o processo, não cheguei a pensar que era um risco de verdade”, finaliza.









