Compulsão alimentar: 'Comi 20 pedaços de pizza de uma vez e passei mal'
Rafaela Mansur Silveira, 23, estava entrando na adolescência quando começou a ter os primeiros episódios de compulsão alimentar. Mais tarde, desenvolveu também bulimia e anorexia nervosa. Atualmente, ela é psicóloga e se dedica a ajudar pessoas com transtornos alimentares
Por Alice Arnoldi, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
A psicóloga Rafaela Mansur Silveira, 23 anos, estava na transição da infância para a adolescência quando começou a ter episódios de compulsão alimentar. Um dos mais marcantes aconteceu aos 15, em um rodízio de pizza com amigos.
“Como eu me restringia muito naquela época, em qualquer saída da dieta eu achava que já tinha estragado o regime. Então, eu tinha que fazer valer a pena e comer tudo o que eu gostava naquele dia”, conta.
A crise de Rafaela começou ainda na casa do ex-namorado, onde tinha salgadinhos de festa. Inicialmente, ela se negou a comê-los porque estava de dieta, só que não conseguia parar de pensar na comida: “Fiquei em uma luta interna por horas até que eu decidi que iria comer”.
A psicóloga ingeriu diversos salgadinhos, dois potes de sorvete com doce de leite e depois foi para a pizzaria com os amigos. Ela tinha o costume de fazer competição de comida e naquele dia não foi diferente.
“Comi 20 pedaços de pizza. Fui embora passando muito mal. Quatro dias depois, quando já estava me restringindo novamente, começaram a vir os pensamentos de que eu deveria ter exagerado mais. Lembro de ficar abrindo o cardápio do restaurante para ver o que mais eu deveria ter comido”, conta.
O que é a compulsão alimentar?
De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), a pessoa para ser diagnosticada com transtorno de compulsão alimentar periódica (TCAP) deve apresentar episódios de compulsão ao menos uma vez por semana, durante o período de três meses.
“A compulsão alimentar é o ato de ingerir, dentro de um período de tempo, uma quantidade de alimentos significativamente maior do que a maioria das pessoas conseguiria em circunstâncias parecidas, juntamente com um sentimento de descontrole perante a comida”, explica a psicóloga Teresa Muller, especializada em transtornos alimentares.
Ainda de acordo com a especialista, a perda de controle em relação à comida costuma fazer a pessoa se sentir culpada, inadequada e até mesmo repugnante. Não por acaso, o indivíduo tende a se isolar socialmente quando desenvolve o transtorno alimentar, principalmente no momento de comer.
“Em episódios de compulsão alimentar, a pessoa geralmente come mais rápido do que o habitual, até se sentir estufada ou passar mal por conta da grande quantidade de comida. Ela não necessariamente sente fome, mas tem um desejo incontrolável por comer, o que engloba aspectos emocionais”, detalha.
O ato de comer torna-se uma válvula de escape para emoções que a pessoa não consegue lidar no momento, principalmente pelo prazer momentâneo que ela sente ao ingerir o que gosta. “A única forma que eu sabia lidar com as minhas emoções era por meio da comida”, relata Rafaela.
Quais são os gatilhos da compulsão alimentar?
Teresa Muller explica que, de acordo com pesquisas recentes, o TCAP afeta 1,5% das mulheres e 0,3% dos homens em todo o mundo. Como aconteceu com Rafaela, o distúrbio tem mais chances de se iniciar na adolescência devido às mudanças psicológicas, emocionais e corporais desse período.
A pressão social vivida por mulheres desde cedo, principalmente quando começa dentro de casa, também é um fator importante para o desenvolvimento do transtorno alimentar.
“Crescer dentro de um ambiente em que há um grande culto à magreza pode ser um gatilho para desenvolver o TCAP. Ao escutar ao longo da vida sobre determinados tipos de corpos serem o ideal, padrões alimentares corretos e errados, a pessoa pode desenvolver muita angústia relacionada à comida a ponto de sentir descontrole ao ter que lidar com ela”, detalha a psicóloga.
Rafaela ouviu comentários sobre o seu corpo, vindos da família, desde muito cedo. Pessoas próximas diziam que ela estava com celulite, que havia engordado e que deveria emagrecer. Isso fez com que ela começasse a tentar perder peso, por meio de dietas restritivas, com 13 anos.
“Comecei a cortar tudo da minha alimentação. Só que, ao mesmo tempo, eu deixava para comer o que eu gostava em momentos específicos. Perto do meu aniversário, eu pedia para a minha mãe encomendar tudo o que eu queria e eu começava a fazer estoque de comidas. Até que chegou um ponto que eu exagerava muito nessas datas”, relata.
A relação entre compulsão alimentar com bulimia e anorexia
De acordo com Teresa Muller, pessoas que enfrentam a compulsão têm mais chances de desenvolver outros transtornos alimentares como bulimia nervosa e anorexia nervosa como um mecanismo psicológico compensatório.
Após episódios de compulsão alimentar, Rafaela teve o primeiro de bulimia. “Em um aniversário, fiquei um tempão pensando que queria comer doce, mas não podia. Até que comecei a comer bala a ponto de passar mal. Forcei o vômito e, a partir de então, isso se tornou uma forma de eu lidar com a situação”, relata.
Ao mesmo tempo, Rafaela continuava tentando fazer dietas restritivas para perder peso, a ponto de desenvolver anorexia nervosa. A psicóloga lutou por nove anos contra os transtornos alimentares até começar a lidar com eles verdadeiramente.
Como tratar transtornos alimentares
O tratamento de transtornos alimentares é multiprofissional, sendo importante o acompanhamento com nutricionista, psicólogo e psiquiatra especializados no assunto.
Rafaela, no entanto, teve dificuldade de encontrar profissionais que entendessem a sua relação desafiadora com a comida. Por ser psicóloga, ela passou a dedicar sua carreira a entender o transtorno alimentar e tentar descobrir, na prática, o que a ajudaria a melhorar.
A peça-chave foi aprender a regular suas emoções sem ser com a comida. Além disso, ela precisou redescobrir os prazeres que sentia para além de comer, como se nutrir de forma intuitiva, sem categorizar alimentos apenas como bons e ruins, e aprender a ser gentil consigo nesse processo.
“A cura não é linear. Às vezes, temos uma recaída e está tudo bem. Vão ter dias que vou recorrer à comida quando estiver um pouco ansiosa e exagerar. Saber diferenciar um exagero de uma crise de compulsão é muito importante”, reforça Rafaela.
Com o intuito de ajudar outras pessoas que estão enfrentando o que a psicóloga viveu, ela decidiu criar o curso Jornada da reconexão com a fome. Seu intuito é mostrar recursos que podem ser colocados em prática para lidar com a compulsão alimentar para além da teoria.
Qual a diferença entre exagero e compulsão alimentar?
A maioria das pessoas está sujeita a comer uma quantidade maior de alimentos principalmente em situações especiais, como celebrações, viagens, jantares e férias. “A diferença é que, em episódios de exagero alimentar, a pessoa não sente descontrole perante a comida como acontece na compulsão alimentar”, esclarece Teresa Muller.









