Por que as mulheres têm mais diabetes do que os homens no Brasil?
Pesquisa Vigitel 2023 aponta que 11,1% das brasileiras têm o diagnóstico, ante 9,1% dos brasileiros
Por Marcella Centofanti, Colaboração Para Marie Claire — São Paulo
Dados do Ministério da Saúde apontam que 10% dos brasileiros têm diabetes. Segundo o Vigitel 2023, uma pesquisa realizada por telefone, a doença é mais prevalente em mulheres do que em homens. Os dados mostram que 11,1% delas têm o diagnóstico, ante 9,1% deles. O que explica o predomínio feminino?
Segundo a endocrinologista Melanie Rodacki, professora associada da UFRJ e vice-presidente do Departamento de Diabetes Mellitus da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), a diferença provavelmente se deve ao fato de que as mulheres procuram o serviço de saúde com mais frequência do que os homens.
“A discrepância aparece, sobretudo, na faixa etária até 54 anos. Mulheres adultas se consultam com o ginecologista para fazer o rastreamento de câncer de mama, por exemplo, e por isso têm mais oportunidade de detectar doenças crônicas”, diz a médica. Além disso, muitas vezes, o diabetes é diagnosticado durante a gravidez, em exames pré-natal.
De fato, entre os 25 e os 34 anos, o Vigitel aponta que 3,5% das entrevistadas declararam ter diabetes, enquanto 1% dos entrevistados deu a mesma resposta. O gráfico segue maior entre elas nas faixas etárias seguintes, até chegar aos 55 a 64 anos, quando 23,4% dos homens responderam ter a condição, ante 21,5% das mulheres. Acima dos 65 anos, 31% delas afirmaram ter diabetes, ante 29,3% deles.
O Atlas do Diabetes, elaborado pela Associação Internacional do Diabetes, compila dados sobre a condição no mundo inteiro. Nos dados referentes à América Central e do Sul, o Brasil aparece com 15,7 milhões de pessoas com a doença. O relatório, porém, não mostra uma diferença significativa entre os gêneros.
Impacto do diabetes na mulher
De acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, o diabetes aumenta o risco de doença cardíaca — sua complicação mais comum — em cerca de quatro vezes nas mulheres, e cerca de duas vezes nos homens.
As mulheres têm piores resultados após um ataque cardíaco e correm mais risco de desenvolver outros problemas relacionados à condição, como cegueira, depressão e doença renal.
“Normalmente, as mulheres têm mais proteção para doenças cardiovasculares. Mas, quando elas têm diabetes, perdem um pouco dessa proteção. A doença cardiovascular causa mais estrago nas mulheres com diabetes do que nos homens com a mesma condição”, afirma Melanie Rodacki.
Segundo ela, alguns estudos indicam que as mulheres na pós-menopausa são mais suscetíveis a algumas complicações do diabetes do que mulheres na pré-menopausa e homens, por efeitos dos hormônios. Esse tópico, no entanto, carece de mais estudos.
O que é diabetes e quais são as suas causas?
O diabetes é uma condição marcada pelo aumento da glicose no sangue. Ele pode ter diferentes tipos e causas.
O diabetes tipo 1, por exemplo, é autoimune. A enfermidade se manifesta quando o sistema imunológico da pessoa destrói as próprias células produtoras de insulina, por interpretá-las como invasoras. Essa versão costuma aparecer na infância ou adolescência, mas pode se manifestar em adultos também.
O mais comum é o diabetes tipo 2, causado por uma alteração metabólica que cria uma resistência à ação da insulina no corpo. Esse tipo está relacionado a obesidade, sedentarismo, hipertensão, triglicerídeos elevados e hábitos alimentares inadequados.
Existe também o diabetes gestacional, causado por uma alteração de glicose detectada na gravidez, além de outros tipos menos frequentes.
Quais são os sintomas da diabetes e como é feito o diagnóstico da doença?
Os principais sinais e sintomas da enfermidade são sede excessiva, perda de peso inexplicável e vontade de fazer xixi várias vezes ao dia. Outras possíveis manifestações são aumento do apetite, visão turva, fraqueza e feridas que demoram para cicatrizar.
“Esses sintomas só aparecem quando a glicose está muito alta. O diabetes pode ser assintomático. Por isso é muito importante que a população faça exames para descobrir se tem a doença. O diagnóstico precoce evita que a pessoa descubra o diabetes em fases mais avançadas, quando pode haver complicações”, diz Melanie Rodacki.
Estima-se que a maioria dos indivíduos com a enfermidade desconhece o diagnóstico. “No cenário mais comum, há uma progressão da doença. A pessoa começa com uma glicose um pouco alta, sem sintomas. A glicose vai subindo e o paciente só descobre quando os sintomas aparecem”, informa a endocrinologista da Sbem.
Os exames de sangue para detectar diabetes são glicemia de jejum e hemoglobina glicada. Se o resultado der alterado, é possível que a pessoa precise repetir o teste para confirmar o diagnóstico.
O tratamento do diabetes tipo 1 é feito com insulina, enquanto o tipo 2 pode ser controlado com medicamentos que aumentam a ação da insulina, estimulam a sua produção ou facilitam a excreção de glicose pela urina.









