Boca seca, cárie e mau hálito: o impacto silencioso das canetas emagrecedoras sobre a saúde bucal
Remédios como Ozempic, Wegovy e Mounjaro estão associados à redução do fluxo salivar, alteração do pH oral e maior risco de problemas nos dentes e gengivas
As chamadas canetas emagrecedoras, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, estão ganhando popularidade entre pessoas que desejam perder peso. No entanto, além dos efeitos digestivos e metabólicos, esses medicamentos podem afetar silenciosamente a saúde bucal, mesmo que a pessoa tenha bons hábitos de higiene.
No consultório, os dentistas começaram a notar pacientes que usam esses remédios com boca seca, saliva espessa, ardência na língua, mau hálito e até mesmo aumento de cáries e gengivite. Estudos de caso publicados na literatura científica também já relataram sintomas.
Os efeitos colaterais estão ligados à redução da produção de saliva. A condição é provocada por alterações fisiológicas desencadeadas por esses medicamentos, como a desaceleração do processo digestivo e o prolongamento da saciedade.
“A saliva é o escudo protetor da boca. Ela hidrata, equilibra o pH, regula bactérias e neutraliza ácidos”, explica a dentista Débora Heller, membro do Grupo de Trabalho de Saliva do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) e professora da Universidade do Texas em San Antonio, nos EUA.
Sem o fluido, o ambiente bucal fica mais vulnerável a desequilíbrios que favorecem a proliferação de microrganismos e a deterioração dos dentes.
Além da diminuição da salivação, náuseas, vômitos e refluxo gástrico, efeitos adversos comuns desses remédios, também contribuem para a erosão dentária, já que colocam os dentes em contato frequente com a acidez estomacal. “Isso pode deteriorar o esmalte dentário e favorecer ainda mais à formação de cáries”, aponta o biólogo Vlamir Bozzatto de Oliveira, professor da Faculdade de Odontologia da APCD.
O que fazer?
As canetas emagrecedoras são medicamentos utilizados a longo prazo ou até mesmo de uso contínuo. Por isso, o cuidado com a saúde bucal deve ser redobrado. O primeiro passo é informar o dentista sobre o consumo do remédio e solicitar uma avaliação salivar. Trata-se de um exame rápido e indolor, feito no próprio consultório, que mede o volume e o pH da saliva.
Segundo Heller, o teste é feito de forma simples, com um copinho plástico e um cronômetro. “Se a produção de saliva for inferior a 0,1 ml por minuto, o paciente recebe o diagnóstico de hipossalivação”, explica. No consultório, também é possível medir o pH do fluido bucal com tiras reagentes ou aparelhos digitais, além de avaliar sua viscosidade. Com esses dados em mãos, o dentista consegue montar um plano de cuidado individualizado.
Entre as medidas mais indicadas estão:
- Aumento da hidratação: beber bastante água ao longo do dia é o primeiro passo para manter a boca úmida e estimular a salivação;
- Uso de chiclete sem açúcar: ele é considerado um estimulante salivar;
- Mudança de hábitos alimentares: consumir alimentos fibrosos como cenoura, maçã, pepino e salsão, além de ervas naturais como gengibre e hortelã, ajudam a ativar as glândulas salivares. Frutas cítricas, como limão e mexerica, também podem ajudar, mas devem ser consumidas com moderação e acompanhadas de enxágue com água para evitar erosão ácida;
- Uso de produtos específicos: “Cremes dentais com flúor e sem lauril sulfato de sódio (LSS), como os da linha Enzycal e alguns da Sensodyne, são recomendados para evitar o ressecamento da mucosa. Enxaguantes bucais devem ser sem álcool”, diz Heller;
- Saliva artificial, se necessário: em casos mais severos, o uso de sprays ou géis pode ser indicado para lubrificar a cavidade oral, sempre com orientação do dentista;
- Raspagem ou escovação suave da língua: ajuda a controlar o mau hálito e o desconforto causado pela saliva espessa.
A frequência do acompanhamento odontológico também deve ser ajustada. Em vez de consultas anuais, pode ser recomendado fazer o monitoramento num intervalo menor. “A frequência deve ser individualizada caso a caso”, afirma a dentista.
Para Heller, a caneta emagrecedora não é uma vilã, mas requer alguns cuidados. “Sem um acompanhamento clínico, ela pode comprometer a saúde bucal silenciosamente. Cabe ao paciente procurar o seu dentista. E a nós dentistas cabe estarmos alertas às mudanças no estilo de vida do paciente”, aponta.
Nota do fabricante
Em nota, a farmacêutica Novo Nordisk esclarece que: "em relação às recentes associações do uso de semaglutida (presente nos medicamentos Ozempic®, Rybelsus® e Wegovy®) a possíveis efeitos adversos ligados à saúde bucal, como boca seca, extrações dentárias, infecções, dores de dente e outros distúrbios dentários, a companhia esclarece que as bulas aprovadas para esses produtos pelas autoridades sanitárias não incluem tais preocupações de segurança7-9.
Essa avaliação é baseada na totalidade das evidências disponíveis, provenientes tanto de estudos clínicos robustos (SUSTAIN, PIONEER, STEP, SELECT, STRIDE, FLOW e SOUL), quanto de dados de farmacovigilância pós-comercialização. Até o momento, mais de 54 mil participantes foram expostos à semaglutida nesses programas, além de mais de 33 milhões de pacientes-ano de exposição global com o uso em vida real10-16. A Novo Nordisk segue colaborando com autoridades regulatórias em todo o mundo para monitora continuamente a segurança de seus medicamentos.
Em caso de dúvidas ou informações adicionais, o SAC Novo Nordisk Brasil está à disposição pelo telefone 0800 014 44 88 (ligação gratuita) de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, ou pelo e-mail sac.br@novonordisk.com".









