Violência de Gênero

Por Camila Cetrone

O recepcionista de um hotel em Blumenau, Santa Catarina, foi indiciado na última terça-feira (8) por crime de racismo resultante de transfobia após impedir que a cantora e apresentadora Mc Trans se hospedasse com o marido no estabelecimento, mesmo com reserva. O caso aconteceu em outubro de 2022 e o indiciamento foi divulgado pela Polícia Civil. Dono do Hotel Salto do Norte, onde o caso aconteceu, não foi incluído no processo.

Quase quatro meses após o crime, Mc Trans conversa com Marie Claire por telefone e conta que o impacto do episódio foi profundo e que resultou nela um quadro de síndrome do pânico. Além disso, também teve a vida financeira e interpessoal abalada. "Estou em uma situação muito privilegiada perante as minhas irmãs [mulheres trans e travestis]. Então, eu tinha esquecido como era se encontrar de novo na vulnerabilidade. O fato de eu ser uma cantora abriu muitas portas pra mim e comecei a acreditar que não passaria mais por isso", desabafa.

Segundo determinação do delegado Arthur Lopes, o inquérito policial concluiu que o recepcionista mudou a forma de realizar o atendimento ao perceber que a cantora é uma pessoa trans. Outros pilares como o "perfil conservador do estabelecimento" e o "histórico de transtornos causados pelo ponto de prostituição de travestis que fica próximo" também levaram ao indiciamento do funcionário.

"Aqui não tem quarto para vocês. Teve engano", foi uma das frases que a Mc ouviu do atendente. Ela gravou o episódio e expôs parte dele nas redes sociais, pedindo ajuda aos seguidores para encontrar um lugar para se hospedar. O crime aconteceu um dia antes de ela realizar a troca do silicone e uma sessão de peeling de fenol. Os dois procedimentos são realizados para feminilização de mulheres trans e travestis.

A médica responsável pelo procedimento receitou algumas injeções anti inflamatórias para serem aplicadas na Mc. Ao retornar a São Paulo e usar uma dose, sentiu coceira intensa, além de palpitação, crises de ansiedade e a sensação de que iria morrer. Foi ao pronto socorro cinco vezes pensando que se tratava de um efeito adverso do medicamento.

"Um dos médicos, que chegou a me atender duas vezes, disse que meus sinais estavam normais, que a reação era motivada por uma situação de estresse”, conta. Depois da quinta ida ao hospital, ela foi encaminhada a uma unidade do Centro de Atenção Psicossocial (Caps).

A cantora passou a realizar acompanhamento psicoterápico e descobriu que estava sofrendo de uma reação pós-traumática, o que a fez desenvolver síndrome do pânico. "Comecei também com o medicamento, que me deixam dopada pela manhã. Tomo quatro antidepressivos à noite e três durante o dia. Nunca pensei que fosse passar por isso".

Mc Trans também passou por períodos de isolamento, em que não conseguia se abrir emocionalmente com o marido e o filho. O impacto também foi financeiro, já que ela precisou desmarcar diversos compromissos profissionais.

Poucas horas depois de publicar o vídeo do crime transfóbico nas redes sociais, ela chegou a receber uma mensagem de um parceiro comercial que rompeu relações por não querer se associar à imagem dela. O porta-voz da empresa também afirmou que a Mc "precisa aprender a resolver as coisas sem levar para a internet".

No entanto, ela diz que essa reação foi um ponto fora da curva. Ela relata que recebeu acolhimento de outros parceiros, que se propuseram a adiantar pagamentos e enviaram mensagens de solidariedade. Em lágrimas, ela diz que se surpreendeu ao realizar o depoimento para a polícia. Ela diz que tinha medo da maneira como poderia ser tratada.

“Sou de uma época que nos diziam para não ir à polícia porque seríamos ridicularizadas. Tive medo, mas fui extremamente acolhida. O delegado me pediu para ficar calma, porque, na verdade, eu era a vítima. Fiquei chocada porque eu fui ouvida pela polícia”, afirma.

Autor de crime de transfobia indiciado

Os crimes de transfobia e LGBTfobia -- que são motivados por orientação sexual e identidade de gênero -- passaram a ser enquadrados na Lei de Racismo a partir de 2019 pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Assim, esses atos de intolerância também passaram a ser crime no Brasil.

Diego Figueiredo, advogado da artista, afirma que o indiciamento valida a ocorrência do crime. Com o início do processo criminal e os laudos psicológicos e psiquiátricos que demonstram o estado de saúde da Mc, a cantora deve entrar com uma ação civil. "Vamos buscar uma indenização para tentar amenizar o transtorno dessa situação vexatória", diz a Marie Claire troca de mensagens de áudio no WhatsApp.

Mc Trans sente alívio com o indiciamento do funcionário, mas lamenta que o estabelecimento e o dono, até esse momento, não serão responsabilizados por falta de provas. “Eu não acredito nisso”, diz a Mc. A cantora conta que, depois de expor o crime, diversas mulheres trans e travestis recorreram a ela nas redes sociais para contar que também receberam o mesmo tratamento por funcionários do Hotel Salto do Norte.

“A reação do atendente foi inacreditável e instantânea. Ele chegou a dizer que, se não fossem as ordens da diretoria, me deixaria entrar. Ele estava cumprindo o que o patrão dele pediu. Não quer dizer que ele não seja transfóbico, porque ele me abordou de um jeito muito transfóbico. Deixou claro que minha existência não era bem-vinda ali”, relata.

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